O que nos separa

Seguindo a dica de um amigo, este final de semana assisti a “Medianeras: Buenos Aires da era do amor virtual”.

Ah, Argentina, obrigada por mais um filme incrível!

“Medianeras” trata de solidão, causada por questões de espaço/físicas, da aleatoriedade (ou destino) que rege nossas vidas, e pelas mudanças que o mundo virtual causou na convivência humana. Para mim, o filme trata basicamente do que nos separa.

Martin e Mariana vivem em prédios quase vizinhos, mas nunca se cruzam. Uma bela história de amor poderia acontecer… se os personagens saíssem de seus minúsculos e mau-cuidados apartamentos para permitir o necessário encontro na “vida real”.

Martin vive numa quitinete (suja), trabalha em casa (é designer de websites), pede comida delivery e só sai para passear com o cachorro e ir à terapia. Mariana é arquiteta, mas não só nunca trabalhou na área como tem fobia de elevador. Saiu de um relacionamento e somente mantém contato com os manequins que usa para decorar vitrines (seu emprego).

O destino não é o único culpado por eles não se encontrarem. Mostra-se o problema da falsa sensação que o mundo virtual (chats, mensagens de texto, videogame online, etc) traz de estarmos conectado a outras pessoas. Não ter um email na caixa de entrada é tida como o cúmulo da solidão.

E o último obstáculo é a arquitetura não-planejada da cidade, tema explorado em tomadas lindamente concebidas por alguém com conhecimento arquitetônico, como bem observou meu pai.

No começo do filme, a culpa pelo stress, hipocondria, dores musculares, suicídio e outros tantos males é atribuída aos arquitetos e empreendedores (coitados!). Mais do que apontar um responsável por toda a solidão, no entanto, esta provocação serve para repensar o espaço urbano em que vivemos aqui na América do Sul, onde as cidades crescem sem planejamento, sem identidade, sem preocupação com o belo e, se me permitem acrescentar, sem o cuidado que cada um de nós deveria ter com o espaço público e privado. Milhões de cabos, pichações, pintura descascando… não tem como se sentir acolhido um local desses.

O filme é delicado, provocador, engraçado. E as referência a “Onde está o Wally?” fez a alegria de alguém que adorava esses livros quando criança…

(foto por Cristiano Cittadino Oliveira)

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4 comentários

  1. Os filmes argentinos andam tão bons, mas tão bons, que estou pensando em começar a colecioná-los. Alguém sabe quais já estão a venda??

  2. Ainda bem que alguem saiu em defesa dos arquitetos.
    O filme é ótimo e poderia se passar em São Paulo. Na verdade, pela feiura que mostra, seria muito mais adequado para SP do que para BsAs. E a gente acha BsAs linda, bem arrumadinha e limpa. É, ainda faz parte da America Latina.
    Voltando aos arquitetos, eles não tem muito oque fazer com relação à desordem urbana, ao caos visual, à feiura. Preocupações esteticas e elevados padrões de ordem e limpeza não fazem parte do cotidiano dessa parte do mundo.

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