Dica do amigo (José Roberto)

Livro: “Bebo, Logo Existo – Guia de um filósofo para o Vinho” (Roger Scruton)

Porque vale a pena ler: A distância é preciosa commodity sem a qual as pessoas não mais pertencem a onde estão. Devemos aprender a amar como ágape, ao invés de perseguir o eros.  O ego não é uma coisa, e sim uma perspectiva. Máximas que se sugerem extraídas de um ensaio filosófico. Bem, seu autor, Roger Scruton, é de fato filósofo, talvez um dos mais respeitados em língua inglesa na atualidade. Britânico e de inspiração conservadora, produziu para a BBC o documentário Why Beauty Matters (sobre como é feia a Arte contemporânea), especializou-se em defender a natureza do Homem e suas fraquezas contra o otimismo irresponsável dos que pretendem transformá-lo (sua última obra é intitulada Uses of Pessimism and the dangers of false hope), e recentemente estrelou nas páginas amarelas de entrevista da Revista Veja (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/roger-scruton/).

 O livro de onde tiradas as ideias acima, porém, adota como tema algo bem menos sorumbático do que Filosofia. Em “Bebo, Logo existo – Guia de um Filósofo para o Vinho”, Scruton makes a point: administrado com sobriedade (sem ironia!), de maneira quase ritualística, o Vinho proporciona à mente humana esclarecimento inalcançável por outras formas – ou pelo uso de outros estupefacientes – oferecendo, acerca dos pensamentos, medos e tormentos que assolam o sujeito, nuances inteiramente novas, reveladoras. Funcionaria como catalisador da formação de ideias e conselheiro na tomada de decisões, e isto não apenas quanto a pequenas dúvidas ou angústias corriqueiras. Mudar-se de país, aceitar ou não um importante cargo e até revoluções no pensar e agir perante os demais seres humanos são atitudes melhor tomadas ou mesmo apresentadas ao cabo de profunda e prazerosa reflexão desencadeada pelo Vinho, pelo consumo racional do Elixir de Baco.         

E se parece o livro distanciar-se da Filosofia e do público-alvo de connoisseurs ou wine-affectionates a que à primeira vista se dirigia, para adentrar o terreno da Autoajuda, seu enredo prontifica-se em dissipar tal impressão, situando-o, talvez, na estante das Autobiografias, à medida que Scruton vai narrando sua trajetória de filho de família humilde no interior da Inglaterra para pupilo de um excêntrico scholar em Cambridge, passando ao estudante que se desiludiria com os ideais marxistas ao presenciar de perto os eventos de maio de 1968 em Paris, onde então vivia, chegando, enfim, ao pai de família que acabou levando mulher e filhos para residir em Virgínia (EUA) após se decepcionar com os rumos culturais e ideológicos de sua pátria-mãe anglo-saxã. 

I Drink, Therefore I am não deixa porém de temperar digressões de brilhante densidade filosófica com deliciosas passagens propriamente dedicadas à Enofilia. O leitor é convidado a passear por regiões tão evocativas como a Borgonha, Bordeaux e o Loire, e a saborear vinhos pouco conhecidos, mas dos quais provieram muitas das conclusões e insights do “Logo Existo”, uma vez consumidos na etapa “Bebo”. Polêmico as usual, o autor não perde a oportunidade de desmistificar as coqueluches do mercado do vinho de preços astronômicos, demonstrando como, frente aos excelentes e mais affordable rótulos aos quais alude, marcas de valor estapafúrdio só podem subsistir graças aos “ricos fedorentos e vulgares que nada sabem sobre Vinho, e por isso compram o melhor”. O tour não se limita à França. O leitor é conduzido, ainda, a um percurso pela tradição vinífera grega e até do Líbano – berço do Vinho, como explica o capítulo voltado à História da bebida.

Obra completa do ponto de vista humanístico, de sua leitura não há como sobrevir tédio ou desapontamento, Quando muito, um enorme desejo de pôr em prática o método, e se entreter em reflexões, na companhia de um bom Vinho.    

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