Delicadeza

Não devia causar espanto. Mas causa.

Um gesto de delicadeza, ir além da resposta social esperada, uma atitude não aguardada de auxílio sem qualquer ganho em contrapartida. Não devia causar espanto. Mas me causou. Fiquei sem dar uma resposta digna. Balbuciando “obrigada, que gentil…“, sem nada muito elaborado para agradecer aquela pessoa que agiu como se fosse minha amiga.

Estava eu no supermercado, fim do dia, segunda-feira, mau humor. Após registrar toda minha compra, olho para os produtos da menina que vinha atrás de mim e, sem querer, resmungo alto: “ai, vendo sua comprar percebi que esqueci de pegar a manteiga!“.

Se a resposta da menina fosse ignorar meu comentário, eu acharia normal. Provavelmente seria minha atitude, com vergonha admito. Sugerir que eu fosse pegar a manteiga, enquanto ela esperava a vez dela, seria um gesto bem educado, simpático e talvez possível de ocorrer.

Ela foi além. Doou sua manteiga para mim, apesar dos meus protestos, e saiu tranquilamente para pegar outra para ela. E eu, como boba, sem saber bem como agradecer. Sentindo-me péssima, porque eu não teria sido tão delicada com um estranho. Imaginando que tipo de pessoa ela seria, para ter tido uma reação tão espontânea de empatia e de amparo.

A caixa do supermercado confidenciou-me que “essa portuguesinha é mesmo muito educada, coisa que não se vê mais“, ao que eu balançava a cabeça efusivamente em concordância. Será culpa da vida corrida de São Paulo para eu não mais esperar – ou fazer – um inesperado gesto de auxílio desinteressado em plena segunda-feira?

Voltei no carro refletindo por que a gente perdeu a capacidade de doar nosso tempo ao próximo nesses pequenos encontros. Por que a gente vive com pressa, torcendo para o outro não nos atrapalhar, para sair da nossa frente? Por que não nos sai tão natural a assistência, a cooperação, o socorro com pessoas que não conhecemos e que sabemos que não mais cruzarão nossos caminhos?

Um gesto de delicadeza não devia causar espanto. Mas causa.

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5 comentários

  1. Ju, estou lendo o livro “A Arte de Ser Leve”, da Leila Ferreira, e os primeiros capítulos são justamente sobre gentileza. Muito disso que você escreveu. Não custa nada, e se cada um for um pouquinho mais gentil, o mundo será mais feliz!

  2. Júlia, um dia eu estava voltando para o meu apartamento e encontrei um casal de idade no elevador. Eles desceram em um andar antes do meu, e como eles estavam com compras, eu desci do elevador e segurei a porta para que eles pudessem sair. O comentário da senhora foi ” Eu moro nesse prédio já faz mais de 40 anos e nunca ninguém fez isso para a gente”. Eu levo isso sempre de exemplo quando estou com pressa o suficiente para passar por cima de alguém, sempre lembro dessa situação, e assim me acalmo e tento ajudar quem está no meu lado. Para você talvez seja a mesma coisa, a partir de agora, sempre que você lembrar da situação da manteiga, poderá também ser gentil com alguém que precisa.
    Muito legal sua reflexão 🙂
    Abraços
    Karla

  3. É verdade, não deveria causar espanto, mas causa.
    Assim como achamos normal muitas coisas que deveriam nos indignar.
    Às vezes os valores estão todos invertidos e a gente não percebe…
    bjo

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