Dica do amigo (Murillo)

Livro: “O Processo”, de Kafka

Tema: Josef K. considera sua vida bastante confortável até que um dia é detido ao acordar. Passa a ser réu em um processo cujo conteúdo é desconhecido pelo personagem e pelo leitor.

Porque ler:  Kafka é único em sua capacidade de transformar uma situação comum em algo literalmente extraordinário.

Tenho o costume (penso que muitos o têm) de me identificar com personagens de livros e filmes. Quando comecei a ler O Processo não foi diferente. Nas primeiras páginas, foi fácil me ver em Josef K.. Ele fica indignado quando oficiais aparecem, sem explicações ou modos, na pensão onde mora para detê-lo. Depois, acha até graça ao saber que aquela detenção não significa que ficaria preso. Pelo contrário: durante as investigações, deveria seguir sua vida como se nada tivesse acontecendo. Josef é lúcido, centrado, espirituoso.

A partir daí, Kafka começa a dar espaço a seu estilo e o absurdo ganha força. O que era observado por Josef através de uma lente transparente, passa a ser visto por uma lente opaca e colorida. Páginas se passam e um caleidoscópio parece estar entre o protagonista e tudo aquilo que se encontra ao seu redor. É aflitivo. Em vez de insistir no plano lógico de descobrir de que crime é acusado, Josef passa para “o outro lado”, imerge num ambiente confusamente burocrático e extremamente opressor. Começa a tentar a se defender. Primeiramente, faz isso sozinho e com despreocupação, até certa arrogância. Mais tarde, deixa seu cotidiano de lado e usa todos os recursos para tentar a absolvição. Escorrega infinitamente. Josef é atraído pelo processo, mas a defesa é impossível. A justiça e a Justiça aparecem como distantes, inacessíveis. É uma narração bem ao estilo de Kafka. Acontecimentos bizarros se sucedem, mas sempre dentro de situações normais. Personagens aparecem e somem sem que a trama seja alterada.

O que tornou o livro muito interessante para mim é que acabei me envolvendo naquele universo absurdo. Assim como Josef, me senti tragado. Assim como Josef, me senti frustrado a cada questão sem resposta. Também Kafka devia se sentir preso a um mundo de aflição e nebulosidade. Muitos são os trechos que estão no livro sem que pareça haver uma razão para tal. Talvez, o escritor quisesse que o leitor também se visse em torno de algo sem sentido. Talvez, tivesse o objetivo de fazer com que todos esperassem, ao lado de Josef, um desfecho, respostas.

Kafka era um sujeito triste, de temperamento frágil, fato comumente atribuído ao autoritarismo exagerado do pai. Morreu em um sanatório, aos 40 anos. O final de O Processo vai de encontro à linha seguida pelo texto e deixa claro o modo como o autor via o mundo: opressor e implacável, de justiça inalcançável.

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