Dica da amiga (Giovana Romani)

Livro: A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

Gênero: romance

Tema: O título não faz mistério. Sim, o tempo é inexorável. E cruel. Mais para uns, menos para outros. Mas cruel. É o que comprova Jennifer Egan ao contar a história de Sasha, a assistente cleptomaníaca de Bennie, um executivo da indústria fonográfica cujo melhor amigo de adolescência, Bosco, relançará sua carreira musical em uma turnê suicida na companhia de Jules Jones, jornalista promissor acusado de abusar de uma jovem atriz. Esses são apenas alguns dos personagens que têm momentos marcantes de suas vidas registrados na narrativa caleidoscópica da autora norte-americana. De 1970 a 2020, de São Francisco a Nova York, a obra retrata com maestria os difíceis efeitos da passagem do tempo.

Por que vale a pena ler: Pela obra, Jennifer Egan, de 49 anos, jornalista especializada em música, levou o prêmio Pulitzer 2011 e elogios rasgados da crítica especializada. Os motivos? São vários. Para começar, vale citar as dezenas de personagens interessantes que se tornam protagonistas ocasionais ao terem momentos marcantes de suas vidas detalhados em um ou mais capítulos. Só isso já permite à autora traçar um painel completo dos costumes e da cultura pop das últimas décadas – e da futura, já que o livro se passa até cerca de 2020 (!).

A técnica narrativa também surpreende. Ao longo dos 13 capítulos, a escritora vai e volta no tempo e mostra os personagens sob diversos pontos de vista (devido à polifonia, ela mesma já classificou o romance como um “ciclo de contos”). Escreve ora em primeira pessoa, ora em terceira, ora em segunda (sim, segunda, algo muito difícil de ser feito). Há ainda uma reportagem jornalística, narradores oniscientes e até um capítulo inteiro em forma de slides de PowerPoint que revelam o que se passa na cabeça de uma menina de doze anos. Tanta inovação na forma, porém, não se sobrepõe ao conteúdo. Muito pelo contrário, o conjunto conquista, seduz e instiga o leitor.

Outro ponto digno de mérito é a própria temática do romance contemporâneo. Com inspiração assumida em Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, o livro aborda um assunto aparentemente batido, a passagem do tempo, de modo sublime e intenso. Confrontado com as perspectivas do passado, o presente e o futuro parecem um tanto frustrantes. Cada virar de página desperta novos questionamentos em nós, leitores. Eu me tornei a pessoa que gostaria de ser quando mais jovem? Tenho controle sobre o que virá pela frente? Como as ações de hoje influenciarão na minha velhice? Terei filhos rebeldes? Tímidos? Será que vou me divorciar? Uma pequena ação hoje pode mesmo mudar tudo amanhã? São muitas perguntas de respostas difíceis. Uma delas, pelo menos, o livro tem: o futuro faz de nós pessoas muito diferentes do que planejávamos. Mas, em alguns casos, tal prerrogativa não é necessariamente ruim. Ainda bem.

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