“O gigante enterrado”

Em “O gigante enterrado”, de Kazuo Ishiguro, uma névoa encobre os personagens, afetando a memória deles. A névoa é tão poderosa que ultrapassa a ficção e atinge o leitor, mas de outra forma: era eu começar a ler para ficar triste. Como se, ao abrir o livro, um manto de melancolia me envolvesse…

Como as palavras são poderosas.

A fábula criada por Ishiguro transcorre em uma Inglaterra ficcional pouco após a morte do Rei Arthur. No meio de ogros e dragões, um casal de idosos, Axl e Beatrice, decide sair de sua vila e reencontrar o filho. A viagem seria complicada por si só, já que lhes falta dinheiro, agilidade e armas contra os perigos da estrada. Só que existe um elemento a torna ainda mais temível: o esquecimento. Não somente dos viajantes. Todos os saxões e bretões que aquela terra habitam não se lembram bem do passado remoto e também sofrem de lapsos de esquecimento de situações recentes.

Tenho medo de contar muito da história e retirar a beleza das pequenas espiadas debaixo do manto do esquecimento; quando tanto os personagens quanto o leitor vão juntando pequenos pedaços de memórias e, assim, vão reconstruindo o passado.

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

“O gigante enterrado” é uma leitura diferente do que estou acostumada. Os questionamentos que eu me fiz se sobressaíam à própria história. É como se o destino dos personagens ficasse em segundo plano….

A ideia de esquecer o passado é pontuada de diversas forma: como uma forma de afastar a culpa ou de permitir a paz ou de manter o “status quo” ou de retirar a dor. O que isso significa para o amor (esquecer as mágoas x esquecer os momentos felizes). Desde a dimensão pessoal até a de todo um povo.

O romance me manteve triste pelas respostas que eu encontrava – ou não encontrava – para cada uma dessas metáforas que as cenas fabulosas traziam. A verdade é que é um livro lindo, ainda que sombrio.

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4 comentários

  1. Achei esse livro tão bonito quando vi na livraria… Mas consegui resistir. 🙂
    Legal suas impressões de leitura. Pretendo escrever umas coisas no meu blog tbm, mas até agora n comecei direito pq não quero fazer resenha, quero colocar umas impressões, tipo o que vc fez nesse texto. Gostei.

    Bjs!

  2. Do Ishiguro, só li “Não me abandone jamais” (e adorei). Foi bem diferente do que eu esperava, mas me surpreendeu positivamente. Eu já tinha pensado em ler esse porque gostei da escrita do autor, mas nem fazia ideia de que tivesse dragões e esse tom fantasioso.
    Engraçado como fazemos suposições sobre os assuntos dos livros, né? Eu faço isso direto…hahaha
    bjo

    1. Eu demorei a aceitar essa parte fantasiosa do livro, porque não era o que eu esperava… Mas isso é o de menos, são elementos muito mais metafóricos para os questionamentos que ele quer trazer.

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