livro

“Tudo o que nunca contei”

Comecei me apaixonando pela capa do livro. E terminei apaixonada pela história – que é triste e envolvente.

Uma experiência muito pessoal e que me encantou em relação à esta leitura foi que eu comecei a enxergar os personagens com minha recente “visão de mãe”, que tem permeado praticamente quase todos meus sentidos, e quando dei por mim, também estava lendo os acontecimentos com minha “visão de filha”. Foi tão revelador e tão satisfatório viver essas duas sensibilidades no mesmo livro!

nuncacontei

Na trama criada por Celeste Ng, não há um personagem principal. Os cinco integrantes da família tem suas vozes e percepções alternadas o tempo todo e cada um deles é parte essencial da narrativa.

Temos o pai, James, filho de imigrantes chineses, cujo maior sonho é se sentir incluído na sociedade, não ser sempre o diferente nos ambientes que frequenta. Temos a mãe, Marilyn, com aparência norte-americana típica, cujo sonho é o inverso: se destacar, não ser “somente” uma dona de casa.

Dos filhos, temos: Nath, o mais velho e Hannah, a mais nova, ambos fisicamente parecidos com o pai chinês e ignorados pelos pais, em especial Hannah, que também é ignorada pelos irmãos. Por fim, Lydia, cujos traços não-chineses a tornam a preferida do pai, pela possibilidade de ter amigos, e cuja inteligência a torna a preferida da mãe.

Na primavera de 1977, Lydia aparece morta. Toda a estrutura familiar rui. Aos poucos, o leitor vai entendendo qual era essa estrutura familiar, de onde ela veio, como cada um se adaptou – ou não – a ela.

A investigação da morte (acidente, homicídio ou suicídio?) é o que menos importa. A relevância está nos laços familiares, nos sonhos frustrados, na dificuldade de comunicação, nas palavras não ditas – no que nunca nenhum deles contou ao outro.

Tudo isso apresentado de forma sensível, fácil de ler, cativante. Você sente a frustração de cada um, você entende as motivações de cada um. Eu queria entrar no livro e dar um abraço em cada um deles.

Um livro precioso que merece todos os méritos de ser bestseller.

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“O livro dos espelhos”

Se ler me traz enorme prazer, também é verdade que ler muito me torna menos fácil de se agradar.

Tomemos por exemplo “O livro dos espelhos”, de E. O. Chirovici.

livroespelhos

Se eu tivesse lido dez, quinze anos atrás, teria achado um suspense muito bacana, que me deixaria curiosa pelo desenrolar da história e me faria ler madrugada adentro. Só que eu o li agora, depois de conhecer muitas histórias policiais, em especial “A verdade sobre o caso Harry Quebert“, que é dos meus livros preferidos da vida e cuja trama tem várias similitudes.

“O livro dos espelhos” é narrado, em cada uma de suas três partes, por um personagem diverso, o que achei original. A verdade sobre os fatos principais não é tão clara e se tem algo que eu adoro são jogos de “esconde e revela”, para eu ir criando minhas hipóteses ao longo da leitura.

Em 1987, o professor universitário Wieder foi assassinado. O crime não foi solucionado, apesar da grande comoção que causou na mídia e na universidade. Décadas depois, o agente literário Peter Katz recebe um manuscrito, em que o antigo aluno de Wieder, Richard Flynn, relata suas lembranças da época.

Só que o manuscrito é parcial e não revela o assassino – se é isso o que Richard pretendia, já que ele morre antes de entregar a Peter o restante das páginas. Tendo em vista que tal livro poderia ser um sucesso editorial, Peter contrata um repórter para investigar o caso.

Para um(a) leitor(a) cuja lista de livros policiais lidos não seja tão extensa, eu recomendaria “O livro dos espelhos”. Ele é razoavelmente bem construído, as reviravoltas nos intrigam e deixa algumas perguntas no ar, para que nós tiremos nossas próprias conclusões (ou não!).

Já para quem já leu muita ficção policial na vida, talvez não traga tanta novidade assim…

“A origem”

Quando a gente gosta muito de um autor, sente um frisson ao dar de cara com um novo livro dele(a). Quer novamente sentir as mesmas emoções que a história anterior provocou. Só que se a fórmula se repete, se repete e se repete, sem nada novo, não há amor que resista.

Foi o que aconteceu comigo e Dan Brown.

Depois de ler “O Código da Vinci” eu quis repetir a dose inúmeras vezes. “O Símbolo perdido” consegue chegar perto. Os outros são diversões bacaninhas. “Anjos e demônios” é um tanto bobinho, mas dei um desconto.

E agora com “A origem”… Não tem mais como engolir essa mesma fórmula. Eu não pretendo ler o próximo livro dele, só para preservar o tanto que eu gostei d´”O Código da Vinci” e “O Símbolo perdido”…!

origem

Para quem quiser saber do que se trata: professor de simbologia Langdon é convidado por seu ex-aluno, o brilhante e controverso, Edmond Kirsch, para assistir a uma palestra na Espanha. Neste evento, o futurólogo (?) revelará as respostas às maiores indagações da humanidade “de onde viemos?” e “para onde vamos?”.

E lá vem toda a fórmula requentada: linda e inteligente garota se une a Langdon numa corrida contra o tempo e contra um fanático religioso para encontrar respostas para uma intrigante questão científica/filosófica/religiosa, percorrendo lugares interessantes e com carga histórica.

“Pequenas grandes mentiras”

Nem sempre um livro nos encontra na hora certa. Muitas vezes não estamos maduros o bastante para uma certa história (o que acredito que seja o que aconteceu comigo e com Elena Ferrante), pode ser que você não tenha vivenciado certa fase da vida para compreender o sentimento de um personagem… Não que seja necessário que você tenha a idade ou a vivência do personagem para amar um livro – porém, em alguns casos, a sua a fase da vida faz, sim, diferença na sua experiência como leitor.

E esse foi meu caso com “Pequenas grandes mentiras”, de Liane Moriarty.

pequenas grandes

Não fosse eu mãe de crianças pequenas que vão à escola, não compreenderia tão bem essa maluquice de muitas mães atuais de tomar conta de ABSOLUTAMENTE tudo o que acontece com a criança na escola. De tomar partido de tudo, de não deixar a criança resolver as questões por si só, de transformar uma comum questão infantil na III Guerra Mundial, como se o filho fosse o único ser importante na face da Terra.

Por estar inserida neste ambiente, eu me identifiquei muito com o ambiente em que a história das três mães se passam. Não que você tenha que ser “mãe-de-criança-pequena-que-vai-à-escola” para curtir este livro, que é uma ótimo entretenimento de qualquer forma. O que eu quis ressaltar é que muitas vezes a sua experiência na vida real afeta positiva ou negativamente sua leitura e neste caso ela deu um super realce!

“Pequenas grandes mentiras”, que virou até badalada minissérie na HBO, começa com uma morte em uma reunião de pais. A Autora é engenhosa o suficiente para que a sua curiosidade maior não seja tanto pela identidade do morto ou pela dinâmica do evento, mas sim em acompanhar as três personagens principais.

Temos Celeste, linda, rica, casada com um marido que a presenteia com jóias, com dois meninos gêmeos e uma casa deslumbrante. A vida perfeita. Só aparentemente perfeita.

Temos Jane, mãe solteira, recém-chegada na cidade, sem amigos e cujo filho – de meros 5 anos – é acusado de bater em uma coleguinha no primeiro dia de aula, mas o menino jura inocência.

E por fim, minha preferida, Madeline, uma filha adolescente do primeiro casamento, dois filhos do segundo casamento, aquela correria na casa, geralmente bem-humorada em cima de seu salto rosa, desde que não cruze com seu ex-marido, a quem ainda não conseguiu perdoar por tê-la abandonada com a filha pequena e – ai que raiva da menina! – a quem a menina prefere.

As três acabam se tornando amigas e o livro vai misturando diversas questões, como violência, maternidade (tão curioso ver que questões que acontecem na Austrália são iguais as do Brasil!), amizade…

Eu fiquei bem grudada na história, com minhas suspeitas sobre o autor do bullying (acertei!), sobre a morte do começo do livro (errei!), sobre o segredo de cada personagem… Pena que o finalzinho do livro tenha sido um pouco decepcionante.

Para ler de uma tacada só!

“A amiga genial”

Por amor a minha mãe, eu queria ter me juntado a ela – e às milhares (ou milhões?) de pessoas que se apaixonaram, que se viciaram, que grudaram na série napolitana da Elena Ferrante.

amiga genial

Foto por Júlia A. O.

A mágica não aconteceu comigo.

Eu passei a história inteira torcendo “agora eu vou gostar, vai ser agora que eu vou me apegar, acho que agora vai ser o momento da virada…”. E lá ia eu persistindo na leitura, me afeiçoando mais das duas amigas, torcendo para elas não fazerem escolhas erradas, compreendendo o estilo de Elena Ferrante escrever, percebendo o que teria feito minha mãe amado tanto a história.

E se minha vontade inicial de largar o livro passou, eu não cheguei ao amor. E como eu quis! Como eu quis sentir aquela vontade louca de espremer uns minutos na minha rotina louca para ler mais umas páginas.

Houve um momento em que eu achei que isso iria acontecer! Lá pelo final, quando Elena (a personagem, não a escritora) vai para a praia e fica alguns dias longe da boa/má influência da amiga Lila, eu me apaixonei por aquele capítulo. Pena que foi só um capítulo.

Não consigo entender o que foi que não me “pegou”. É uma história muito bem construída. Bem escrita. Palavras bem colocadas. Você não sabe para onde a vida das personagens principais, as amigas Lila e Elena, está indo. A relação das duas é ao mesmo tempo benéfica e maléfica e este é um tema interessante. A Itália, onde a história se passa, é um país interessante.

O que será aconteceu que eu acabei a leitura sem ter me decidido se encaro os demais 3 livros da quadrilogia? E com tristeza por não poder compartilhar deste amor com minha mãe?

Fiquei divagando e nem falei sobre a história do livro que, a essa altura, tamanho o sucesso dele, todos devem conhecer: na Napóles do pós-guerra, duas pré-adolescentes fazem amizade, uma relação complexa e que molda suas escolhas, neste ambiente de pobreza, violência e poucas escolhas para mulheres.

“Americanah”

Depois de Chimamanda Adichie ter virado ídola após eu ver sua palestra no Ted Talks e lido seu manifesto “Como educar crianças feministas”, estava mais do que na hora de eu ler o lindo presente que ganhei da Juliana, do blog Fina Flor.

E o livro estava à altura do desafio de manter minha admiração pela escritora nigeriana!

americanah

É um livro de romance. Acompanhamos os encontros e desencontros amorosos de Ifemelu e Obinze na adolescência e idade adulta. São personagens fortes, falhos, apaixonantes, com detalhes que vão os tornando cada vez mais reais. Eu sentia que em outras circunstância de vida poderia tê-los conhecido! Eles descobrem um laço fortíssimo a os unir, então as escolhas os separam, o tempo passa…

É um livro de crítica social. Pouco conheço da Nigéria e foi uma experiência muito interessante saber mais sobre um país que não é glamoroso ou visto nos filmes que assisto ou livros que leio. Também é uma crítica sobre os Estados Unidos, país para onde a Ifemelu se muda de modo a terminar sua faculdade após intermináveis greves na sua universidade nigeriana.

É um livro relevante para o debate do racismo. Chimamanda se vale de uma história fictícia e de humor para trazer à baila as questões de raça. É um tema espinhoso por ser incômodo e muitas vezes porque nós, que não sofremos discriminação, podemos não perceber certas atitudes como racistas ou o que é ter a cor da sua pele como elemento que impacta tanto sua vida. Na maior parte da história, a escritora dosa bem as questões raciais/sociais e a história de vida e de amor ali trazida. E quem não sabe o que é passar por isso, vai sentindo empatia e questionando tantas coisas. E quem sabe o que é passar por isso, se sente acolhido, sente que passa a ter representação na História.

É um livro de humor. Tem drama, sim, mas Chimamanda sabe ser engraçada ao criticar, principalmente através da Ifemelu, que não consegue se conter e muitas vezes se passa por “bocuda”.

Um verdadeiro presente que ganhei de uma pessoa que eu sequer conheço na vida real. Obrigada, Juliana!

Para uma leitora de 4 anos

Em comemoração ao aniversário da minha lindeza, compilei aqui os livros que eu acho que ela adoraria conhecer (#dicadepresente 😉

  • “Alice viaja nas histórias”, Luciana Pisnky
  • “Me…Jane”, Patrick Mcdonnell
  • “Histórias de Willy”, Anthony Browne
  • “Minha mãe é uma bruxa?”, Liz Martinez
  • “Papai é meu”, Ilan Brenman
  • “Bichodario”, Telma Guimarães
  • “Abra com cuidado! Um livro mordido”, Nicola O´Byrne
  • “A fada que tinha ideias”. Fernanda Lopes de Almeida