livro

“Pequenas grandes mentiras”

Nem sempre um livro nos encontra na hora certa. Muitas vezes não estamos maduros o bastante para uma certa história (o que acredito que seja o que aconteceu comigo e com Elena Ferrante), pode ser que você não tenha vivenciado certa fase da vida para compreender o sentimento de um personagem… Não que seja necessário que você tenha a idade ou a vivência do personagem para amar um livro – porém, em alguns casos, a sua a fase da vida faz, sim, diferença na sua experiência como leitor.

E esse foi meu caso com “Pequenas grandes mentiras”, de Liane Moriarty.

pequenas grandes

Não fosse eu mãe de crianças pequenas que vão à escola, não compreenderia tão bem essa maluquice de muitas mães atuais de tomar conta de ABSOLUTAMENTE tudo o que acontece com a criança na escola. De tomar partido de tudo, de não deixar a criança resolver as questões por si só, de transformar uma comum questão infantil na III Guerra Mundial, como se o filho fosse o único ser importante na face da Terra.

Por estar inserida neste ambiente, eu me identifiquei muito com o ambiente em que a história das três mães se passam. Não que você tenha que ser “mãe-de-criança-pequena-que-vai-à-escola” para curtir este livro, que é uma ótimo entretenimento de qualquer forma. O que eu quis ressaltar é que muitas vezes a sua experiência na vida real afeta positiva ou negativamente sua leitura e neste caso ela deu um super realce!

“Pequenas grandes mentiras”, que virou até badalada minissérie na HBO, começa com uma morte em uma reunião de pais. A Autora é engenhosa o suficiente para que a sua curiosidade maior não seja tanto pela identidade do morto ou pela dinâmica do evento, mas sim em acompanhar as três personagens principais.

Temos Celeste, linda, rica, casada com um marido que a presenteia com jóias, com dois meninos gêmeos e uma casa deslumbrante. A vida perfeita. Só aparentemente perfeita.

Temos Jane, mãe solteira, recém-chegada na cidade, sem amigos e cujo filho – de meros 5 anos – é acusado de bater em uma coleguinha no primeiro dia de aula, mas o menino jura inocência.

E por fim, minha preferida, Madeline, uma filha adolescente do primeiro casamento, dois filhos do segundo casamento, aquela correria na casa, geralmente bem-humorada em cima de seu salto rosa, desde que não cruze com seu ex-marido, a quem ainda não conseguiu perdoar por tê-la abandonada com a filha pequena e – ai que raiva da menina! – a quem a menina prefere.

As três acabam se tornando amigas e o livro vai misturando diversas questões, como violência, maternidade (tão curioso ver que questões que acontecem na Austrália são iguais as do Brasil!), amizade…

Eu fiquei bem grudada na história, com minhas suspeitas sobre o autor do bullying (acertei!), sobre a morte do começo do livro (errei!), sobre o segredo de cada personagem… Pena que o finalzinho do livro tenha sido um pouco decepcionante.

Para ler de uma tacada só!

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“A amiga genial”

Por amor a minha mãe, eu queria ter me juntado a ela – e às milhares (ou milhões?) de pessoas que se apaixonaram, que se viciaram, que grudaram na série napolitana da Elena Ferrante.

amiga genial

Foto por Júlia A. O.

A mágica não aconteceu comigo.

Eu passei a história inteira torcendo “agora eu vou gostar, vai ser agora que eu vou me apegar, acho que agora vai ser o momento da virada…”. E lá ia eu persistindo na leitura, me afeiçoando mais das duas amigas, torcendo para elas não fazerem escolhas erradas, compreendendo o estilo de Elena Ferrante escrever, percebendo o que teria feito minha mãe amado tanto a história.

E se minha vontade inicial de largar o livro passou, eu não cheguei ao amor. E como eu quis! Como eu quis sentir aquela vontade louca de espremer uns minutos na minha rotina louca para ler mais umas páginas.

Houve um momento em que eu achei que isso iria acontecer! Lá pelo final, quando Elena (a personagem, não a escritora) vai para a praia e fica alguns dias longe da boa/má influência da amiga Lila, eu me apaixonei por aquele capítulo. Pena que foi só um capítulo.

Não consigo entender o que foi que não me “pegou”. É uma história muito bem construída. Bem escrita. Palavras bem colocadas. Você não sabe para onde a vida das personagens principais, as amigas Lila e Elena, está indo. A relação das duas é ao mesmo tempo benéfica e maléfica e este é um tema interessante. A Itália, onde a história se passa, é um país interessante.

O que será aconteceu que eu acabei a leitura sem ter me decidido se encaro os demais 3 livros da quadrilogia? E com tristeza por não poder compartilhar deste amor com minha mãe?

Fiquei divagando e nem falei sobre a história do livro que, a essa altura, tamanho o sucesso dele, todos devem conhecer: na Napóles do pós-guerra, duas pré-adolescentes fazem amizade, uma relação complexa e que molda suas escolhas, neste ambiente de pobreza, violência e poucas escolhas para mulheres.

“Americanah”

Depois de Chimamanda Adichie ter virado ídola após eu ver sua palestra no Ted Talks e lido seu manifesto “Como educar crianças feministas”, estava mais do que na hora de eu ler o lindo presente que ganhei da Juliana, do blog Fina Flor.

E o livro estava à altura do desafio de manter minha admiração pela escritora nigeriana!

americanah

É um livro de romance. Acompanhamos os encontros e desencontros amorosos de Ifemelu e Obinze na adolescência e idade adulta. São personagens fortes, falhos, apaixonantes, com detalhes que vão os tornando cada vez mais reais. Eu sentia que em outras circunstância de vida poderia tê-los conhecido! Eles descobrem um laço fortíssimo a os unir, então as escolhas os separam, o tempo passa…

É um livro de crítica social. Pouco conheço da Nigéria e foi uma experiência muito interessante saber mais sobre um país que não é glamoroso ou visto nos filmes que assisto ou livros que leio. Também é uma crítica sobre os Estados Unidos, país para onde a Ifemelu se muda de modo a terminar sua faculdade após intermináveis greves na sua universidade nigeriana.

É um livro relevante para o debate do racismo. Chimamanda se vale de uma história fictícia e de humor para trazer à baila as questões de raça. É um tema espinhoso por ser incômodo e muitas vezes porque nós, que não sofremos discriminação, podemos não perceber certas atitudes como racistas ou o que é ter a cor da sua pele como elemento que impacta tanto sua vida. Na maior parte da história, a escritora dosa bem as questões raciais/sociais e a história de vida e de amor ali trazida. E quem não sabe o que é passar por isso, vai sentindo empatia e questionando tantas coisas. E quem sabe o que é passar por isso, se sente acolhido, sente que passa a ter representação na História.

É um livro de humor. Tem drama, sim, mas Chimamanda sabe ser engraçada ao criticar, principalmente através da Ifemelu, que não consegue se conter e muitas vezes se passa por “bocuda”.

Um verdadeiro presente que ganhei de uma pessoa que eu sequer conheço na vida real. Obrigada, Juliana!

Para uma leitora de 4 anos

Em comemoração ao aniversário da minha lindeza, compilei aqui os livros que eu acho que ela adoraria conhecer (#dicadepresente 😉

  • “Alice viaja nas histórias”, Luciana Pisnky
  • “Me…Jane”, Patrick Mcdonnell
  • “Histórias de Willy”, Anthony Browne
  • “Minha mãe é uma bruxa?”, Liz Martinez
  • “Papai é meu”, Ilan Brenman
  • “Bichodario”, Telma Guimarães
  • “Abra com cuidado! Um livro mordido”, Nicola O´Byrne
  • “A fada que tinha ideias”. Fernanda Lopes de Almeida

Wishlist #1

Além dos cerca de 30 livros que placidamente aguardam sua vez na minha sempre crescente pilha, eu ainda encontro espaço para uma listinha de futuras aquisições desejadas. É pouco tempo para tanto livro, mas a gente segue acreditando que vai conseguir!

Vocês conhecem algum desses? Recomendam ou posso cortar da minha lista?

  • “Os antiquário”, Pablo de Santis
  • “Cartas do Papai Noel”, Tolkien
  • “Onda”, Suzy Lee (livro infantil)
  • “Em um bosque muito escuro”, Ruth Ware
  • e mais que tudo, os novos livros lindos ilustrados do Harry Potter ❤ ❤ ❤

“Para educar crianças feministas – um manifesto”

chimamanda

Chimamanda Ngozi Adichie virou minha ídola. Se eu falasse palavrão, diria que essa mulher é muito f**a. Como não uso”palavras de baixo calão”,  salvo momentos de muita irritação no trânsito, vou dizer que essa mulher é MUITO incrível.

Há dois anos, ganhei num sorteio da Fina Flor um presente. A Juliana, dona do blog, me enviou um livro que a havia marcado, “Americanah”, da Chimamanda. Mesmo acreditando que seria uma leitura que valia a pena, não encontrava o momento de querer ler aquele livro e ele foi se acomodando na minha interminável pilha (spoiler: estou lendo – devorando – no momento).

O nome de Chimamanda começou a pipocar por aqui e acolá, em especial depois que a Dior estampou uma camiseta com o título da palestra que a escritora nigeriana deu para o Ted Talks: “We should all be feminists”.

Com o nascimento do meu filho e o crescimento da minha filha, de repente a questão do feminismo bateu forte!

Meus pais não me impediram de fazer nada por ser menina – pelo contrário, me incentivaram a ser independente e me ajudaram a seguir meus sonho. No entanto, algumas percepções machistas foram passadas, até mesmo porque todos fomos criados assim e sequer percebemos e questionamos certas diferenciações. Eu mesma já agi e pensei sem perceber que aquilo talvez seria machista.

Queria o feminismo na minha vida. Só que eu não me reconhecia nos discursos mais “hard”, mais “nós contra eles”, assim como não me encaixava no rótulo de ser feminista mas não ser feminina. Eu gosto de rosa e laço, gente!

Aí entra Chimamanda Ngozi Adichie com seu papo de “sou-feminista-que-não-odeia-os-homens-e-que-gosta-de-usar-salto-alto-e-batom-mas-não-para-os-outros-e-sim-para-si-mesma”.

Comecei com o discurso dela no Ted Talks. Eu literalmente forcei meu marido a assistir comigo. Ele começou meio “hum, não sei se concordo totalmente” e acabou por assimilar muito do que foi dito – acho que como pai de menina, o assunto também mexeu com ele.

Já eu terminei a palestra num estado de semi-euforia. Ela consegue tratar de um assunto pesado e muitas vezes causador de discórdia de uma forma leve e ainda assim muito contundente.

Então corri para ler o livreto “Para educar crianças feministas – um manifesto”. Fiquei ainda mais encantada com Chimamanda, que ingressou no meu rol de heroínas.

Posso não concordar com 100% das colocações dela (com 95%, eu diria), mas o livro me fez refletir sobre tantas coisas que eu sempre assumi como normais e nunca me perguntei se eram realmente bacanas, justas, corretas.

É tão curioso como a gente vai repetindo muitos conceitos sem parar para pensar se concorda com eles, se eles fazem sentido. Você ouviu de alguém mais velho, logo mais sabedor das coisas, ou de alguém que você admira.

Ainda que não ache que a gente mesma consiga mudar tanto assim nosso modo de agir, de enxergar (e também das pessoas ao nosso redor), acredito MUITO no poder de transformação pela educação das crianças. Como disse uma amiga, um trabalho de formiguinha, que dará resultado nas próximas gerações.

E não é aquela coisa genderless ao extremo, e sim se perguntar se certos limites que colocamos às meninas fazem sentido. Se é justo esperar certos comportamentos delas e não deles e vice-versa.

Não é sair agredindo ou brigando. É sair educando e questionando, com carinho, respeito e paciência.

Não é nós x eles. Somos todos. Juntos.

E o livreto é exatamente isso, um início de uma reflexão para que possamos tomar prestar atenção ao que ensinamos às crianças.

We should all be feminists.

(Esse assunto tem me empolgado – percebe-se pelo tamanho do post… ahahahah)

“The book of speculation”

book of speculation

Foto por Júlia A. O.

Livros que falam sobre livros são instantaneamente atraentes para mim. Quem é viciado em ler – e ler em papel – me entenderá.

Livro é um objeto mágico. Ao te transportar para outras histórias, ele serve como amigo (e às vezes como inimigo). Ele te ensina, te faz rir, te faz chorar, te faz questionar, te faz sentir aquele quentinho no coração. Ele amplia seu repertório mesmo sem você ter vivido aquilo.

“The book of speculation”, da Erika Swyler, é um livro sobre um livro. Como esse livro une gerações e gerações. O livro é muito importante para a trama e outras horas ele quase desaparece.

Os capítulos intercalam a história de Simon e de Amos. Simon trabalha em uma biblioteca e vive na casa que era de seus pais. A casa está caindo aos pedaços, mas ele não tem dinheiro para consertá-la. Um marchand de livros desconhecido envia ao rapaz um livro que teria pertencido à avó de Simon.

Ao ler o livro, Simon começa a se preocupar cada vez mais com sua irmã, pois aparentemente existe uma maldição que recai sobre todas as mulheres da família: mesmo elas sabendo segurar o fôlego como se sereias fossem, elas morrem afogadas.

Já a história de Amos se passa no passado e é de cortar o coração. Abandonado, ele é resgatado por um circo. Primeiramente ele faz apresentações como uma criança selvagem, todo desgrenhado, aterrorizando os espectadores. Mesmo sendo mudo, a cartomante o escolhe como aprendiz e a vida do menino melhora, até uma menina, com dons de sereia, se juntar à trupe.

O engraçado é que eu fiquei muito curiosa para saber o final e li numa boa velocidade, indicativos de que eu amei uma história. Só que eu não posso dizer que eu o tenha amado.

Os elementos fantásticos são bem dosados e a tensão vai sendo construída engenhosamente. O que especialmente não me fez adorar o livro como eu deveria eu até agora não consegui identificar!