livro

“Sombra e ossos”

Estava eu sedenta por uma história de fantasia. Com mágica, por favor! Só que o Patrick Rothfuss está há anos nos devendo o terceiro volume da saga O matador de Rei (vol 1 e vol 2 devidamente resenhados e amados), não tenho mais nadinha de Harry Potter para ler e o segundo volume da saga da Passa-espelhos só chega no segundo semestre. Na minha GIGANTESCA livraria pessoal de livros ainda não lidos não tinha nenhum de fantasia.

Então, internet está aí para nos ajudar, certo? Caí no buraco do coelho da Alice e sei lá como cheguei a uma youtuber dando dica de livros de fantasia. O nome da menina eu me esqueci, mas as dicas foram bem anotadas e comecei por “Sombra e ossos”, de Leigh Bardugo.

Na mosca!

sombraossos

É um livro YA, com escrita simples e construções de frases que às vezes me dão vontade de corrigir (talvez seja um problema da tradução?). Mas uma vez que eu aceitei estas características, fui tragada pela história e acabei o livro em três dias!

A curiosidade é tamanha que corri para comprar os seguintes dois volumes e já comecei a devorar o segundo.

A personagem principal é a Alina, jovem órfão que vive em Ravka. O país encontra-se em dificuldades econômicas e sociais em virtude da existência da Dobra ou Não-mar. A Dobra é uma espécie de fenda de norte a sul no país, onde a escuridão absoluta reina e  monstros (os alados volcras) atacam quem por ali atravessar.

Alina trabalha como cartógrafa e junto com Maly, seu melhor amigo (e paixão platônica), faz parte de uma esquife que vai atravessar o Não-mar. Atacados por volcras, Alina se joga sobre Maly para defendê-lo e inadvertidamente demonstra possuir um incrível poder de conjurar luz.

O Darkling, general do exército, a leva para a capital, onde ela será treinada junto com os Grishas, que são pessoas que possuem poderes especiais. Ela é vista pelo Darkling como a esperança de acabar com a Dobra.

No meio da atração pelo Darkling, da saudade de Maly, dos duros treinamentos e da dúvida sobre a força de seu poder, Alina se vê no meio de um jogo de intrigas de poder para o qual ela não é párea.

Há uma bem-sacada reviravolta, que me pegou totalmente desprevenida e fez eu me ver desesperada, pois não percebi que a história iria tomar este rumo (e tampouco queria esse rumo)! Não falo mais nada para não estragar a diversão de quem decidir se aventurar por Ravka 🙂

 

 

“Minha história”

Acreditam que eu nunca tinha lido uma autobiografia? Na verdade, esse gênero literário não havia exercido qualquer atração sobre mim. Eu imaginava – preconceito – uma leitura parada, sem graça, cheia de datas e eventos que não despertariam curiosidade em mim.

Talvez só me faltasse a pessoa correta como “autobiografado”.

E essa pessoa foi Michelle Obama e seu aclamado “Minha história”.

livro michelle

Nada de história travada ou desinteressante. Nada de datas e eventos desinteressantes. Pelo contrário, que vida! Que trajetória! Quer personalidade! Que acasos! Que decisões a cada bifurcação! Que resiliência! Que otimismo! Que abertura em mostrar que compartilha das dúvidas de qualquer mãe que que trabalha!

Minha lista de “que…!” vai longe.

Eu pouco sabia da Michelle Obama fora sua postura correta, energética e desbravadora como a primeira primeira-dama negra dos EUA. Ao ler sua história, descobri que ela foi a primeira  – ou das primeiras – em muitos campos e seu compasso moral e paixão pelos estudos me conquistaram.

Eu gostei mais da parte antes de que ela se tornasse primeira-dama. Michele poderia ter sido uma a mais, só que a base de família amorosa combinada com sua personalidade, alavancada por todos que acreditaram nela fez que um futuro melhor se tornasse possível.

Os capítulos sobre seus anos na Casa Branca algumas vezes pareciam conter explicações sobre situações exploradas de forma desfavorável pela mídia e/ou pelos adversários políticos, o que retirou um pouco aquele tom de extrema franqueza. Ainda assim, acho que ninguém pode saber o que é ser atacado por tantas pessoas, que sequer se colocam no seu lugar ou se preocupam com a correção da informação propagada.

Ao fim da leitura, eu tive a certeza de reconhecer uma ídola viva! Michelle é uma mulher incrível. Corajosa, inteligente, determinada, otimista, empática, agregadora, correta. E, além de tudo, escreveu um livro muito cativante!

(terei exagerado nas exclamações? acho merecidas)

“O bom filho”

“O bom filho”, de You-Jeong Jeong chegou até a mim por meio de uma assinatura trimestral que fiz da TAG Livros – inéditos, pois estava curiosa para saber que a tipo de literatura eu seria apresentada. Ainda não li os outros três livros que chegaram nos meses em que a assinatura vigeu, mas posso dizer que esta escolha foi bem interessante.

Só o fato do livro ter sido escrito por uma sul-coreana já me deixou curiosa para conhecer o estilo de escrita e ambientação da história.

A história? A história é terrível.

bom filho

Não terrível no sentido de ruim. Terrível no sentido de causar terror, de ser atroz. De incutir temor no leitor.

Yu-Jin mora com sua mãe e seu irmão adotivo num espaçoso apartamento em uma cidade sul-coreana que ainda está se desenvolvendo, por isso mais parece um canteiro de obras. Ele acorda um dia com um gosto ruim na boca, que é intensificado pela chocante cena ao descer as escadas do duplex: sua mãe está morta e uma enorme quantidade de sangue está espalhada pela casa.

O rapaz não se lembra direito do que aconteceu na noite anterior e é a jornada pela recobrada da memória que acompanhamos. O que se percebe logo de cara é que a reação de Yu-Jin não é o que naturalmente se espera de uma pessoa que se depara com um ente querido morto em circunstâncias tenebrosas.

A leitura transcorria como um acidente cheio de sangue pelo qual eu passava ao lado e não sabia se queria olhar ou não. E o pior de tudo era acompanhar tudo pela mente do narrador, cujos pensamentos e atitudes me deixavam cada vez mais incomodada e assustada.

Muitas vezes eu queria fechar os olhos – o que com a leitura de um livro físico não era possível, então segui na escalada assombrosa do enredo. Mesmo com repugnância no coração, gostei bastante do livro.

 

“O ano em que disse sim”

A Shonda Rhimes criou um império na televisão americana: Grey´s anatomy, Scandal, How to get away with murder. Ela foi parte na revolução da representatividade no entretenimento norte-americano: seus personagens refletem a vida real no sentido em que há variadas cores, sexualidade, opções de vida (casamento/filhos/carreira).

No entanto, o seu imenso sucesso profissional não se refletia na vida pessoal. Shonda conta em “O ano em que disse sim – como dançar, ficar ao sol e ser sua própria pessoa” que tinha se descuidado da saúde, não achava tempo para as filhas, não tinha vida social e recusava todos os convites que não envolvessem ficar numa sala escrevendo.

Sua irmão mais velha lhe disse algo que ficou reverberando em sua mente: que ela sempre dizia “não”. E então Shonda resolveu dizer “sim” para tudo que lhe desse medo. Com isso, livrou-se de amizades tóxicas, deixou de ser obesa, fez palestras, conseguiu brincar com suas meninas e adotou uma nova postura frente a vida.

sim shonda

Shonda exagera naqueles momentos motivacionais-auto-ajuda-você consegue que tanto me irritam nesse tipo de livro. A linguagem por vezes é coloquial demais para meu gosto e eu torci o nariz.

Só que não dá para não gostar de Shonda! Ela é uma pessoa bem incrível e criou personagens fictícios incríveis também. E mesmo não amando a leitura, eu fiquei ainda mais fã dela.

“Entres cabras e ovelhas”

No Natal eu ganhei muitos livros – aquele presente que não tem erro, no meu caso!

Eu costumo deixar a pilha de livros a ler crescer, crescer, crescer… Até que eu achei que a pilha estava gigante demais para se encaixar no espírito Marie Kondo de arrumar (e viver). Isso significou que dentre aqueles famigerados compromissos que a gente faz com a gente mesma no começo de cada ano, estava o de ler mais e o de ler primeiro os livros que eu ganhei recentemente.

“Entre cabras e ovelhas”, da Joanna Cannon, foi presente de Natal da minha cunhada Carla (que penou na livraria para achar os livros que eu dei de “dica”. Tks, cunhadinha!).

Uma coisa que a gente descobre quando lê bastante é identificar que tipo de história ou personagem você gosta. Eu gosto bastante quando o livro é para adultos, mas o narrador é uma criança ou pré-adolescente. Embarco com gosto na viagem literária escrita através do olhar curioso, muitas vezes inocente e ao mesmo tempo atento a detalhes.

Em “Entre cabras e ovelhas”, há alternância entre capítulos narrados pela pré-adolescente Grace e outros pelos diferentes adultos que moram numa pequena vila britânica. A história vai-e-vem entre 1967 e 1976.

Em 1976, uma moradora, a Sra. Creasy, desaparece sem aparente motivo. Seu marido fica sem chão e os demais moradores da vila parecem estar à flor da pele. Grace e sua amiga Tilly ficam intrigadas pelo desaparecimento e o que isso provocou nos adultos. Indagados por que as pessoas desaparecem, os adultos parecem culpar o calor insuportável. Mas pelo o que Grace entende do sermão do pastor, a culpa é de se desviar de Deus. Então se une a sua melhor amiga, Tilly, para ir de casa em casa procurando por Deus.

Em 1967, seguimos flashbacks que vão colocando em contexto, bem aos poucos, o modo pelo qual cada um dos moradores da vila age, em especial porque Walter Bishop é visto como um pária, excluído do convívio social.

A história parece simples.

Não se engane.

Por trás das palavras que correm fáceis pelo texto, há profundos questionamentos sobre Deus, sobre o bem e o mal, sobre preconceito, sobre segredos e o poder que eles tem, sobre convivência, sobre empatia, sobre querer fazer parte de um grupo.

Uma leitura leve e ao mesmo tempo intensa, se você se permitir ir atrás das questões que a escritora habilmente joga, quase que disfarçadamente, aos leitores.

“Vale do encantamento”

Não importava a pilha de cinquenta livros a serem lidos na minha casa. Eu queria ler algo da Amy Tan. Uma história que se passasse na China, que tivesse toques fantásticos, que tivesse drama, que eu tivesse certeza de que me envolveria.

Que bom que eu segui meu instinto e busquei na casa da minha mãe “Vale do encantamento”.

vale

Na China do começo do século XX, Violet cresce na casa de cortesãs de sua mãe, Lulu. É uma casa de “classe”, em que clientes chineses e estrangeiros são bem-vindos. Violet é mimada e se acha superior por ser americana, até ser confrontada com o fato de ser meio-chinesa e perder, em um momento extremamente doloroso, o convívio com sua mãe.

Por quase 600 páginas fui transportada para a trajetória das vidas de Violet e Lulu. Encantei-me com a descrição dos costumes e das cidades tão diferentes do que eu conheço. Sofri com as dores que sofreram mãe e filha: decepção, mal-entendidos, separação, morte, perda, violência, traição. Corações partidos que conheceram grandes amores e também grandes desilusões. Que batalharam, se refizeram, seguiram firmes.

Uma jornada incrível de se acompanhar.

“Fazendo as pazes com o corpo”

Er…. ontem não tivemos o post prometido por motivos técnicos de marido me deixando trancada fora de casa. É a vida, né, gente….!

Desantenada do mundo jornalístico televisivo que sou, não sabia quem era Daiana Garbin quando uma amiga estava comentando sobre o livro dela, “Fazendo as pazes com o corpo”.

daiana

A conversa em que surgiu o nome do livro era bem profunda sobre como nós mulheres temos estas questões difíceis com o desejo do corpo perfeito, como a relação com a comida passou de prazerosa à classificação em comida certa ou as proibidas “gordices” (detesto esta palavra), como a gente se vê com um olhar muito mais crítico e indelicado do que aquele que dirigimos às amigas.

Na esteira desse desabafo mútuo – e que fez eu perceber que essa pessoa não era mais uma conhecida, mas agora uma amiga – ela me recomendou a leitura do relato da Daiana Garbin.

“Uma mulher linda dessas escrevendo sobre problemas de auto-estima em relação à aparência?”, pensei, descrente. Retirei o preconceito ao iniciar a leitura e valeu a pena.

Daiana Garbin foi bastante corajosa em dar a cara a bater ao criar um canal no youtube e ao escrever o livro, onde nos conta de todos os anos em briga com a balança, em um relacionamento doentio com a comida, com tudo que ela perdeu ao deixar esse assunto permear tantas escolhas e o conceito que ela tinha de si mesma.

Eu não tenho distúrbio alimentar, mas compreendo quando ela confessava o que é se avaliar pelos kilos a mais, pensar que “tem” que fazer dieta senão seria “menos”… Toda uma questão de auto-estima que foi bem difícil na minha adolescência e início da vida adulta.

O livro me pareceu bacana como uma conversa para quem sofre com uma ‘relação doentia com a comida e a obsessão pela forma perfeita”, como a própria Daiana descreve.

Eu queria dar esse livro para algumas amigas. Com medo de ser mal interpretada, me refugio neste post, torcendo para que alguma delas comece a se conscientizar de que é muito perda de tempo esse objetivo do corpo de revista – que o que vale é ser saudável e aproveitar a  vida.

Recado de que eu também preciso ser lembrada de tempos em tempo. Mea culpa.