pessoal

O espaço entre nós

Quando se é mãe de um bebê e uma criança pequena, sempre alguém está no seu colo, nos seus braços, em cima de você de alguma forma. O espaço entre você e seu filhote é minúsculo. A noção do espaço que seu corpo ocupa no mundo é fortemente afetada pelo fato de você ter constantemente este apêndice carinhoso.

O que me leva a sofrer por antecedência, imaginando o dia em que meus filhos não vão mais viver empoleirados em mim. Em que não serei mais a poltrona de uma criança brincando ou vendo um filme. Em que não serei mais o lugar de consolo quando minha filha ou filho está triste. Em que não poderei pegar meu bebê quantas vezes quiser nos meus braços para dar uma fungada no cangote cheirosinho dele.

Em que outros lugares no mundo serão mais interessantes que este grude na minha pele.

Por isso, enquanto este dia não chega, sigo desfrutando feliz todas as vezes que eles querem que esta distância entre nós seja de milímetros.

Memória

A minha letra e a dificuldade de mantê-la bonita ao escrever erlenmeyer

A montanha de cascas de pistache ao lado do meu avô

O barulho da porta do armário de doces escondidos da minha avó, que eu e meu irmão nos esforçávamos para abrir em segredo

Os risquinhos de lápis na parede, que marcavam o avanço do meu pai para levantar o braço, após ele fraturar a clavícula e muitas costelas

A avalanche de brinquedos caindo da sacola da minha amiga de infância Anna Márcia, toda sexta-feira

A admiração do mundo adulto quando eu entrava no closet da minha mãe

O boneco comando em ação sem uma das pernas, que eu e meu irmão usávamos como motorista do tanque

O esforço para corrigir a rota quando eu nadava de pranchinha e me sentia entortar na raia

O pelo da Mamma Snif (minha cachorra de pelúcia)

 

Myers-Briggs tipos de personalidade

Quando adolescente, uma das minhas atividades preferidas era fazer testes de personalidade em revistas juvenis. É um prazer incomparável quando o resultado do teste é exatamente aquilo que você pensa sobre você.

Como uma prova de que eu me conhecia e isso me tornaria mais propensa a ser feliz e atingir meus objetivos.

Já não leio revistas juvenis, nem encontro testes por aí…

isfj

Até topar com um teste grátis, online, baseado nos estudos da psicóloga Isabel Myers Briggs e sua mãe que, a partir da teoria das personalidades de Carl Jung, definiram um meio de identificar a que tipo de personalidade você pertenceria.

Foi a meia hora mais divertida do meu dia:

https://www.16personalities.com/

Há o teste completo e pago da fundação que leva o nome das pesquisadoras, mas o testezinho grátis já está bom, não é?

Para minha alegria, a descrição do meu tipo de personalidade ajusta-se exatamente no que penso sobre mim. Sou ISFJ-T. Introverted, observant, feeling, judgind, turbulent (o teste é em inglês).

Essa sou eu.

Introvertida, mas gosto de eventos sociais – características que sempre me pareceram compatíveis, ainda que haja quem confunda introversão com timidez. Quero que os outros gostem de mim; fujo de conflito; amo ser mãe; procuro relacionamentos estáveis, de confiança e nos quais meu empenho seja apreciado; me dedico às tarefas a mim confiadas; me sobrecarrego para não chatear os outros; tenho dificuldade com tarefas que exija somente criatividade; adora montar planos detalhados; busco harmonia.

E você? Você me conta que tipo de personalidade você é?!

Atualmente eu estou…

… me culpando por não ter comemorado o aniversário do blog, que foi dia 12. Parabéns meu querido esquecido! Ainda acredito que um dia a gente volta a ser companhia rotineira.

… lendo – e adorando – o calhamaço “O temor do sábio”, de Patrick Rothfuss.

… ouvindo uma música boa de dançar, da Pia Mia, “Touch”.

… assistindo a “Patrulha canina” no Netflix. Quase não tenho tempo de assistir a nada adulto, então eu obedeço a minha filha e sento juntinho dela para ver o mesmo episódio pela milésima vez.

… comendo com moderação. Na maior parte dos dias. Excluindo finais de semana e dias de nóia de chocolate.

… organizando a casa e quebrando a cabeça para fazer caber tudo que acumulamos nestes anos mais as aquisições para o novo membro da família, que logo chegará para aumentar o tamanho do meu coração, mas não da nossa casa.

Já não posso abrir um livro sem desejar ver seu rosto calmo e concentrado, sem constatar que não a verei mais e, o que talvez seja pior, que não serei mais vista por você. Nunca mais seus olhos olharão para mim. Quando o mundo começa a se despovoar das pessoas que nos amam, pouco a pouco vamos nos transformando em desconhecidos, ao ritmo dessas mortes. Meu lugar no mundo estava no seu olhar e ele me parecia tão incontestável e eterno que nunca me incomodei em ver qual era.”

Trecho de “Isso também vai passar”, de Milena Busquets

Se você foi abençoado nesta vida com uma mãe maravilhosa – como eu tenho a sorte de ter, em quem você deposita tanto do que você é, te desafio a não chorar com essa reflexão de uma filha adulta sobre a perda de sua genitora.

Do luxo de Dowton ao lixo de Camden

Maggie Smith poderia ser eterna. Ela convence como a rica, politicamente incorreta (para os dias atuais) e engraçadíssima Condessa Grantham do seriado “Dowton Abbey” com a mesma facilidade que nos faz crer ser uma pessoa em situação de rua no filme “A senhora da van”.

Antes de falar sobre o filme, queria fazer um pequeno comentário de cunho pessoal: eu adoro ir ao cinema com meu marido. É minha companhia preferida. Ele carinhosamente segura minha mão, ele gosta de ouvir o que eu falo e dividir suas impressões sobre a história, ele é curioso e muitas vezes vai atrás de mais informações sobre os eventos reais relacionados ao filme…

Fazia um bom tempo que não conseguíamos ir ao cinema (“Zootopia” com a filhota não conta). E quando finalmente conseguimos umas horinhas para um programa adulto, eu sorri e fechei aos olhos, saboreando o momento, enquanto as luzes do cinema iam se apagando.

Mas voltando ao filme…

“A senhora da van” é uma história verídica. Apesar do alerta no começo, eu me esqueci, tamanha a bizarrice dos acontecimentos. Mary Shepherd – se é que é seu verdadeiro nome – é uma senhora que vive em uma van. Como não tem banheiro próprio e é um pouco maluquinha, dá para imaginar a sujeira em que vive.

a-senhora-da-van.jpg

Ela estaciona sua van por aí. No recorte do filme, ela está em Camden Town, bairro londrino que na década de 70 começa a se valorizar. Ninguém quer aquela senhora fedida na frente de sua casa. Ninguém quer ser insensível e os vizinhos tentam fazer alguma caridade por ela, que nunca agradece.

Quando a Prefeitura proíbe que se estacione carros na rua onde ela costuma parar, uma solução surge: ela é “convidada” por um escritor, Bennet, a deixar sua van na vaga de garagem na frente do imóvel dele. Assim, ela continua morando do jeito que quer (na van, seguindo suas próprias regras) e não precisa sair de Camden.

Eu não entendi totalmente o motivo de Bennet ter feito tal oferta. O que era para ser temporário transforma-se em um arranjo permanente, sem que nenhuma das partes avance nenhum centímetro em direção à mudança: ela mudar de local de estacionamento ou aceitar ir para uma casa de idosos assistencialista ou ele pedir que ela saia ou fazer com que aceite outra alternativa de moradia.

O fato dessa situação peculiar ter interesse ao lado escritor de Bennet parece suplantar os incômodos que isso traz ao lado morador de Bennet…

O filme anda numa constante, sem nenhuma grande reviravolta ou grande clímax. É, por outro lado, um ótimo filme para buscar completar as complexidades destes dois personagens (em especial dela), não apresentadas numa bandeja ao espectador.

E, já que estou dada a devaneios pessoais hoje, uma frase dita por Bennet reverberou perfeitamente em mim. Ela diz que “to care” (que pode ser traduzido como “importar-se” ou “tomar conta”) tem muito a ver com merda (desculpem a palavra!). Quem tem filhos pequenos compreende totalmente essa frase, pois um dos pontos em torno do qual a sua vida passa a gravitar é do cocô de seu rebento. E tanto o cuidar, como o importar-se com seu filhote passa por ter de lidar com…cocô.

Começar 2016 no desapego

Na “nóia” (só essa palavra descreve meu estado) de me desapegar que se seguiu à “A mágica da arrumação” (depois faço um post contando a experiência reveladora que se seguiu a este livro), comecei a refletir que precisava me desapegar não só de objetos. Na lista deveriam estar inclusas pessoas, hábitos, atividades… É meu projeto para 2016, me desapegar do que/de quem não funciona mais ou que, ainda que seja legal, não cabe mais no tempo que tenho disponível.

Bem nessa pegada é o texto da Elizabeth Gilbert, cuja tradução li no blog Microclima.

Vale a pena ler mil vezes e refletir mil e uma.

 

EU AMO VOCÊ, MAS ESTOU ME DESPEDINDO

Quantas vezes, na sua vida, você precisou dizer essa frase?

Você precisa dizê-la mais uma vez?

Não estou falando de despedir-se de um relacionamento, mas de despedir-se de coisas que você ama, mas que estão lhe impedindo de seguir o caminho que você precisa seguir.

Você pode amar cigarros, por exemplo, e saber que eles não estão lhe ajudando em nada.

Você pode amar a sua cidade natal e, ao mesmo tempo, saber que precisa ir embora.

Você pode amar a sua casa e saber que ela é muito grande para você.

Você pode amar as pessoas com as quais trabalhou durante dez anos, mas talvez seja a hora de se despedir delas e começar a procurar um novo emprego.

Você pode amar sair para tomar uns drinques com os amigos no final do dia, mas você sabe que isso lhe deixará muito cansado para se dedicar às suas paixões pelo resto da semana.

Na turnê de Big Magic, no final das apresentações, perguntei ao público sobre as coisas para as quais eles precisam começar a dizer “não” para, assim, obter mais tempo e energia para as coisas que realmente querem fazer.

Percebi que o principal motivo pelo qual as pessoas não estão exercitando a própria criatividade é que elas não têm tempo ou energia para isso – especialmente depois de gastarem toda a sua energia com os outros.

Há algum tempo, enquanto eu estava lutando para me tornar escritora, uma senhora muito sábia me perguntou, certa vez: “De que você está disposta a desistir para ter a vida que você diz que quer ter?”.

Respondi que ela tinha razão. “Eu realmente preciso começar a aprender a dizer não para as coisas que não quero fazer.”

Ela me corrigiu: “Não. É um pouco mais complicado que isso. Você precisa aprender a dizer não para as coisas que você QUER fazer, sabendo que a sua vida é uma só, e você não tem tempo e energia suficientes para dar conta de tudo”.

Foi então que parei de assistir TV. (Não se preocupem, já voltei a assistir TV!) Durante alguns anos, nos meus vinte e poucos, quando estava tentando desesperadamente descobrir como escrever melhor e me tornar uma autora publicada, tive de dizer à TV: “Eu amo você, mas estou me despedindo”.

Porque eu sabia o que queria fazer (escrever) e sabia como queria fazê-lo (alegre e energicamente)… então comecei a me despedir de muitas coisas.

Você ficaria chocado se eu lhe contasse algumas das coisas às quais tive de dizer não. Oportunidades maravilhosas. Aventuras deslumbrantes. Experiências divertidas. Chances de conhecer pessoas incríveis. E alguns convites para uns drinques com amigos durante a semana (e nos finais de semana também).

Eu adoraria ter podido fazer todas essas coisas, mas sou uma só. Sabia o que queria fazer de verdade na minha vida, e sei o que é preciso para manter o foco e a dedicação.

Repitam comigo: “Eu amo você, mas estou me despedindo”.

Não sei de que você precisa se despedir para começar a viver a vida que diz que quer viver.

Mas creio que, talvez, você saiba.

Já está na hora?

LG