argentino

Darín, produto argentino de exportação

Tudo mundo que eu conheço e que gosta de cinema argentino se pergunta se existe algum outro ator no país além de Ricardo Darín. Com certeza, há – imagino que somente chegue nas grandes redes de cinema brasileiras os filmes em que ele estrela, por ser conhecido do público. Não tem problema. Acho-o incríivel!

Recentemente assisti a dois filmes dele que, se não gostei particularmente, não deixam de ser boas interpretações do argentino.

relatos selvagensNo cinema, foi “Relatos selvagens”, que concorre ao Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro. Não nego que é um filme intenso. Só que até agora não sei dizer se gostei. São seis histórias em que a violência é o principal ingrediente. São pautadas pela vingança. E pela perda de controle da racionalidade. O que o torna difícil de digerir é essa violência até as últimas consequencias, como os dois homens que se desentendem no trânsito e cuja vingança mútua vai escalando a níveis horripilantes.

setimoJá “Sétimo” foca em um suspense com uma carinha norte-americana, diferente do que se costuma encontrar no cinema argentino. O filme vai bem até o final, que consegue estragar toda “boa” tensão que você compartilha com o pai de duas crianças que somem enquanto descem a escada do prédio ao mesmo tempo em que o pai (Darin) desce pelo elevador.

“Cordilheira”

O mundo parecia conspirar para eu ler “Cordilheira”, do Daniel Galera. Referências ao livro ou à coleção na qual ele está inserido (“Amores expressos”, da Cia. das Letras) pipocavam por aí. Melhor me render.

E valeu a pena?

Sim e não. Para tantas indicações que me fizeram decidir por fazer esse livro pular para o topo da imensa lista de leituras, não foi um amor para a vida. Está mais para uma paixonite de inverno.

Por outro lado, que refresco entrar em um mundo jovem e atual! Se eu ignorasse os arroubos de maluquice dos personagens, poderiam ser pessoas que cruzaram meu caminho. Além disso, a linguagem é moderna ao ponto de eu sentir que a história estava acontecendo agora mesmo.

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

Anita não sabe muito bem o que quer da vida aos trinta anos. Na verdade, ela quer ter um filho e ficar em casa. Suas ambições terminaram ao escrever um livro de sucesso anos atrás. A tentativa de suicídio de uma amiga e o rompimento com o namorado a levam a sair da inércia e viajar para Buenos Aires. A edição argentina de seu livro contará com uma festa de lançamento e a editora a convidou para participar. Até aí a história parece ser a das dificuldades sobre crescer, ser adulto, etc.

Na capital portenha, Anita se envolve com um argentino e seu grupo de amigos. E é nesse ponto que a história fica interessante: esse pessoal leva muito a sério a literatura. Ao ponto de misturar ficção e realidade em suas próprias vidas. Fiquei muito curiosa para ver aonde Daniel galera ia levar essa narrativa. E gostei bastante do resultado.

 

Ricardo Darín: selo de qualidade

Ricardo Darín parece onipresente no cinema argentino; pelo menos, nas produções que chegam não nossa terrinha. E eu vou feliz assistir a todos os filmes nos quais ele atue!

tese sobre homicidioEm “Tese sobre um homicídio” não é diferente: Darín dá um show de interpretação e escolhe um roteiro inteligente para tirar do papel. Neste thriller psicológico, ele é um gabaritado professor de Direito que tem como aluno o filho de um amigo. O rapaz tem ideias peculiares sobre o Direito, em especial sobre a punição penal.

Quando uma moça é encontrada assassinada no estacionamento da faculdade, Bermudez (o professor) torna-se obcecado em descobrir o culpado, que, a seu ver, está diante de si e o desafio em um jogo perigoso.

Gosto de distrações leves, mas gosto ainda mais de filmes que tratam o espectador como ser pensante e não mero “engolidor de imagens”. As discussões de filosofia jurídica levantadas no filme são um plus à trama bem construída.

E o final? Nossa! Surpreendente!

Comer bem em Buenos Aires…

… é tarefa fácil.

Mutos brasileiros torcem o nariz para a carne argentina, por achá-la “sem sal”. Eu e meu marido, por outro lado, somos ultra-fãs. Ele, daquelas bem sangrentas; eu, das “cocidas”, que ainda assim não perdem o sabor.

Com a chegada do feriado, imagino que haverão alguns leitores do blog rumando para o país “hermano”. Vou aproveitar e indicar dois restaurantes especialmente bons, que conheci por dica de amigos:

SUCRE – Esse é para arrasar. Ambiente hiper moderno, pessoas bonitas e bem vestidas, precinho condizente com o local e comida ótima, em especial ums maravilhosa costela de carneiro da Patagônia. Vá lá (e bem vestido): calle Mariscal Antonio José de Sucre, 676, Belgrano

FERVOR – Restaurante frequentado por argentinos do bairro da Recoleta, o que por si só já é atestado de boa carne. Do lado das deliciosas e tradicionais empanadas do Sanjuanino, encontra-se o restaurante no qual se pode pedir qualquer carne sem medo de ser feliz. Vá lá: calle Posadas, 1519, Recoleta.

E você, tem uma dica imperdível de Buenos Aires?

“As viúvas das quintas-feiras”

Condomínios fechados na qual vive a elite. Empregadas domésticas de outras nacionalidades. Moradores que fizeram dinheiro honestamente convivem com outros que o ganharam em esquemas escusos. Vizinhos em competição pelo melhor carro, melhos escola do filho, melhor performance no golfe e tênis. Desespero com a chegada da recessão. A suspeita morte de três homens em um dos seus semanais encontros masculinos (as mulheres ficam livres para compras e seus afazeres).

Este cenário poderia ser brasileiro. Mas não é. Ambientado na Argentina, a história ganha contornos de crítica social nas mãos de Cláudia Piñeiro. Uma interessante mescla entre uma história de suspense e o exame do quão importante é “ter” ao invés de “ser.

Buenos Aires - por Cristiano Cittadino Oliveira

Dica do amigo (Cristiano-2)

Livro:  Livrarias com cafés de Palermo, em Buenos Aires

Estilo:  Bem antigas, cheirando a papel e madeira mesmo

Tema:  Volta ao Tempo

Porque vale a pena ler: Neste caso visitar…  porque são lugares em que se pode passar bastante tempo oscilando entre as páginas de livros novos e usados e cafés gostosos, até bem tarde (como tudo nesta cidade).  Ambientes que não costumamos mais ver tão facilmente, e, de quebra, numa das melhores regiões para se caminhar em Buenos Aires.  
Uma delas é a Libros del Pasaje, na Rua Thames.  Um amontoado de livros que deve ter alguma lógica na sua distribuição, mas isso não faz a menor diferença.  O simples fato de se observar os muitos títulos e cores já está suficiente. 

Monotemática?

“Mais um filme argentino? Essa menina é monotemática?”

Desculpem-me, porém estou na fase dos filmes argentinos. Porque não só eles trazem histórias originais, como também tem maior proximidade com nossa realidade do que os filmes norte-americanos.

Dessa vez foi “Um conto chinês”, com o Ricardo Darín, segundo maior produto de exportação da Argentina (depois das carnes..nhamnham…). Como disse meu marido, uma história simples, com poucos cenários e atores, mas muito a contar.

Por acaso do destino, um ermitão dono de uma loja de ferragens acolhe, a contragosto, um chinês perdido em Buenos Aires, que não fala uma palavra sequer de espanhol. A diferença de língua e cultura, somada à falta de traquejo social do argentino, são barreiras quase intransponíveis na comunicação dos dois.

E é essa dificuldade de se fazer entender que rende cenas de morrer de rir e também de se emocionar.

O que eu mais gostei foram frases, olhares ou atos, que, ainda que comedidos e rápidos, revelam muito da interferência que uma estabelecida rotina da solidão tem na vontade de fazer o certo.