aventura

“A origem”

Quando a gente gosta muito de um autor, sente um frisson ao dar de cara com um novo livro dele(a). Quer novamente sentir as mesmas emoções que a história anterior provocou. Só que se a fórmula se repete, se repete e se repete, sem nada novo, não há amor que resista.

Foi o que aconteceu comigo e Dan Brown.

Depois de ler “O Código da Vinci” eu quis repetir a dose inúmeras vezes. “O Símbolo perdido” consegue chegar perto. Os outros são diversões bacaninhas. “Anjos e demônios” é um tanto bobinho, mas dei um desconto.

E agora com “A origem”… Não tem mais como engolir essa mesma fórmula. Eu não pretendo ler o próximo livro dele, só para preservar o tanto que eu gostei d´”O Código da Vinci” e “O Símbolo perdido”…!

origem

Para quem quiser saber do que se trata: professor de simbologia Langdon é convidado por seu ex-aluno, o brilhante e controverso, Edmond Kirsch, para assistir a uma palestra na Espanha. Neste evento, o futurólogo (?) revelará as respostas às maiores indagações da humanidade “de onde viemos?” e “para onde vamos?”.

E lá vem toda a fórmula requentada: linda e inteligente garota se une a Langdon numa corrida contra o tempo e contra um fanático religioso para encontrar respostas para uma intrigante questão científica/filosófica/religiosa, percorrendo lugares interessantes e com carga histórica.

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“O temor do sábio”

Ao invés de sentir receio ao estar frente a frente com 960 páginas, frenesi foi o que meu corpo experimentou ao abrir a capa do segundo livro de Patrick Rothfuss sobre a saga de Kvothe. Seguido de receio, sim. Mas não pelo calhamaço de páginas e sim pelo medo de não amar este livro como com “O nome do vento”.

temorsabio

Medo infundado. O livro é tão incrível quanto o anterior. Patrick Rothfuss, como conseguiu esta façanha? De não perder a mão em tamanha quantidade de páginas? Em manter meu interesse aceso por todas as aventuras que o Kvothe vivencia após suspender seus estudos na universidade?

Para quem gosta de ficção fantástica, é um verdadeiro delírio. História bem construída, com personagens apaixonantes, irritantes, amedrontadores, enigmáticos – tem de tudo. Só não tem tédio ou clichês baratos.

“Os últimos dias de nossos pais “

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos e que recomendo a torto e a direito é “A verdade sobre o caso Harry Quebert”, de Joel Dicker. Tamanha é minha paixão pelo livro, que meu marido saiu à caça de mais livros do mesmo autor. Encontrou e me presenteou com “Os últimos dias de nossos pais “.

foto ultimos dias

Dentre os milhares de temas relacionados à II Guerra Mundial, a trama gira em torno de franceses que se tornaram espiões para o governo britânico, em uma manobra inteligente do primeiro ministro Churchill. Eles eram treinados na Inglaterra e aqueles que sobrevivessem a essa difícil peneira eram “devolvidos” a seu país de origem, para lá atuarem infiltrados, em espionagem ou sabotagem.

O livro segue um grupo de rapazes e uma moça que, ao longo dos treinamentos, tornam-se amigos e cuja atuação na Resistência francesa os leva a destinos variados.

É um bom livro? É. Chega aos pés da obra mais conhecida do mesmo autor? Não. Nem de longe. A comparação é injusta. Talvez se eu não soubesse quem era o escritor e tivesse expectativas normais em relação ao novo livro cuja leitura eu iniciava… Mas não há como eu mudar essa experiência que eu já tive. Eu esperava um novo Harry Quebert e não o encontrei.

“Os últimos dias de nossos pais ” é um livro que eu daria de presente, que eu indicaria… Só não para alguém que já tivesse tido a sorte grande de já ter lido “A verdade sobre o caso Harry Quebert”.

“Matéria escura”

A capa do livro chama muita atenção: um laranja quase neon, com uma moderna tipografia. Comigo não vale a máxima de não julgar um livro pela capa. Eu adoro capas bonitas e interessantes.

Eu estava ainda na alucinação após ter visto o filme “A chegada” e muito interessada em assuntos de física, tempo, espaço, universo. A proposta de “Matéria escura”, de Blake Crouch, encaixava-se perfeitamente em meu estado de ânimo, tanto que pulou na frente de dezenas de livros que aguardam em minha livraria particular (como gosto de chamar minhas pilhas de livros novos ainda por ler).

Foto materia escura

O livro tem premissas interessantes e questões de física quântica, que, para uma leiga, foram apresentadas de forma bastante convincente. Jason Dessen é um professor universitário de física, muito feliz com sua vida familiar (uma mulher e um filho), porém não totalmente satisfeito no campo profissional. Ele era um físico brilhante que teve de abandonar as pesquisas para se dedicar a ser um bom pai e marido.

Em um dia qualquer, ele é sequestrado e drogado. Colocado em uma caixa escura. Ao acordar, o protagonista parece estar em um mundo parecido com o seu, mas com elementos importantes totalmente diferentes. Não é casado, não tem filho e é um profissional renomado em sua área.

Jason não sabe mais o que é realidade, o que foi sonhado, qual sua verdadeira vida… Bastante angustiante, não?

A trama é bem veloz e com inimaginadas reviravoltas – com exceção de um fato importante, que saquei logo no começo. O que me incomodou foi eu perceber que a história é claramente um roteiro para um futuro filme. Não que livros não possam viram filmes – veja a maravilha que são os filmes do Harry Potter e do Senhor dos anéis. Só que quando a trama está mais preocupada em funcionar num filme do que ser uma boa leitura, eu implico.

E você não tiver este tipo de implicância, será uma leitura bastante divertida.

“O oceano no fim do caminho”

Neil Gaiman tem uma legião de seguidores, dos quais eu não me incluía porque sempre imaginei que ele escrevesse sobre assuntos “dark”. Acontece que alguns títulos tem tamanho poder de atração que você sequer percebe quem seria o autor.

“O oceano no fim do caminho”. Um título maravilhoso! Minha curiosidade ficou enormemente instigada…

Foto por Julia A. O.

Foto por Julia A. O.

A história é um pouco juvenil, vale o alerta. Tendo em mente esta consideração, a leitura é uma verdadeira delícia. O narrador é um homem que retorna a sua cidade natal para um velório. Essa volta faz com que ele rememore um importante evento de sua infância, em que realidade e fantasia se misturaram em uma aventura vivida na fazenda de sua amiga Lettie.

O leitor é presenteado com uma fábula agridoce, em que uma criança perde sua ingenuidade ao viver acontecimentos fantásticos.

 

Mentir até quando?

De vez em quando eu encontro umas boas surpresas no Netflix ou na Apple TV e me pergunto por que tal filme não teve maior bilheteria ou repercussão quando estreou no cinema, ao passo que umas belas porcarias ganham tamanho destaque…

Uma dessas boas descobertas foi “A grande mentira”, com as excelente atrizes Helen Mirren e Jessica Chastain (há protagonistas masculinos, mas elas dominam a tela).

grandemetira

Três agentes da Mossad são destacados para capturar um nazista na Berlim dos anos 60. O plano termina com o assassinato do criminoso e os agentes são condecorados pelo sucesso da missão. Trinta anos depois, surgem dúvidas se a captura foi realmente exitosa…

O que me surpreendeu é que a história mistura romance, suspense, ação, questões de cunho moral… Além de ser original! Se não fosse o final que eu achei um pouco forçado, o filme seria 10 estrelas.

“O gigante enterrado”

Em “O gigante enterrado”, de Kazuo Ishiguro, uma névoa encobre os personagens, afetando a memória deles. A névoa é tão poderosa que ultrapassa a ficção e atinge o leitor, mas de outra forma: era eu começar a ler para ficar triste. Como se, ao abrir o livro, um manto de melancolia me envolvesse…

Como as palavras são poderosas.

A fábula criada por Ishiguro transcorre em uma Inglaterra ficcional pouco após a morte do Rei Arthur. No meio de ogros e dragões, um casal de idosos, Axl e Beatrice, decide sair de sua vila e reencontrar o filho. A viagem seria complicada por si só, já que lhes falta dinheiro, agilidade e armas contra os perigos da estrada. Só que existe um elemento a torna ainda mais temível: o esquecimento. Não somente dos viajantes. Todos os saxões e bretões que aquela terra habitam não se lembram bem do passado remoto e também sofrem de lapsos de esquecimento de situações recentes.

Tenho medo de contar muito da história e retirar a beleza das pequenas espiadas debaixo do manto do esquecimento; quando tanto os personagens quanto o leitor vão juntando pequenos pedaços de memórias e, assim, vão reconstruindo o passado.

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

“O gigante enterrado” é uma leitura diferente do que estou acostumada. Os questionamentos que eu me fiz se sobressaíam à própria história. É como se o destino dos personagens ficasse em segundo plano….

A ideia de esquecer o passado é pontuada de diversas forma: como uma forma de afastar a culpa ou de permitir a paz ou de manter o “status quo” ou de retirar a dor. O que isso significa para o amor (esquecer as mágoas x esquecer os momentos felizes). Desde a dimensão pessoal até a de todo um povo.

O romance me manteve triste pelas respostas que eu encontrava – ou não encontrava – para cada uma dessas metáforas que as cenas fabulosas traziam. A verdade é que é um livro lindo, ainda que sombrio.