aventura

“O temor do sábio”

Ao invés de sentir receio ao estar frente a frente com 960 páginas, frenesi foi o que meu corpo experimentou ao abrir a capa do segundo livro de Patrick Rothfuss sobre a saga de Kvothe. Seguido de receio, sim. Mas não pelo calhamaço de páginas e sim pelo medo de não amar este livro como com “O nome do vento”.

temorsabio

Medo infundado. O livro é tão incrível quanto o anterior. Patrick Rothfuss, como conseguiu esta façanha? De não perder a mão em tamanha quantidade de páginas? Em manter meu interesse aceso por todas as aventuras que o Kvothe vivencia após suspender seus estudos na universidade?

Para quem gosta de ficção fantástica, é um verdadeiro delírio. História bem construída, com personagens apaixonantes, irritantes, amedrontadores, enigmáticos – tem de tudo. Só não tem tédio ou clichês baratos.

“Os últimos dias de nossos pais “

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos e que recomendo a torto e a direito é “A verdade sobre o caso Harry Quebert”, de Joel Dicker. Tamanha é minha paixão pelo livro, que meu marido saiu à caça de mais livros do mesmo autor. Encontrou e me presenteou com “Os últimos dias de nossos pais “.

foto ultimos dias

Dentre os milhares de temas relacionados à II Guerra Mundial, a trama gira em torno de franceses que se tornaram espiões para o governo britânico, em uma manobra inteligente do primeiro ministro Churchill. Eles eram treinados na Inglaterra e aqueles que sobrevivessem a essa difícil peneira eram “devolvidos” a seu país de origem, para lá atuarem infiltrados, em espionagem ou sabotagem.

O livro segue um grupo de rapazes e uma moça que, ao longo dos treinamentos, tornam-se amigos e cuja atuação na Resistência francesa os leva a destinos variados.

É um bom livro? É. Chega aos pés da obra mais conhecida do mesmo autor? Não. Nem de longe. A comparação é injusta. Talvez se eu não soubesse quem era o escritor e tivesse expectativas normais em relação ao novo livro cuja leitura eu iniciava… Mas não há como eu mudar essa experiência que eu já tive. Eu esperava um novo Harry Quebert e não o encontrei.

“Os últimos dias de nossos pais ” é um livro que eu daria de presente, que eu indicaria… Só não para alguém que já tivesse tido a sorte grande de já ter lido “A verdade sobre o caso Harry Quebert”.

“Matéria escura”

A capa do livro chama muita atenção: um laranja quase neon, com uma moderna tipografia. Comigo não vale a máxima de não julgar um livro pela capa. Eu adoro capas bonitas e interessantes.

Eu estava ainda na alucinação após ter visto o filme “A chegada” e muito interessada em assuntos de física, tempo, espaço, universo. A proposta de “Matéria escura”, de Blake Crouch, encaixava-se perfeitamente em meu estado de ânimo, tanto que pulou na frente de dezenas de livros que aguardam em minha livraria particular (como gosto de chamar minhas pilhas de livros novos ainda por ler).

Foto materia escura

O livro tem premissas interessantes e questões de física quântica, que, para uma leiga, foram apresentadas de forma bastante convincente. Jason Dessen é um professor universitário de física, muito feliz com sua vida familiar (uma mulher e um filho), porém não totalmente satisfeito no campo profissional. Ele era um físico brilhante que teve de abandonar as pesquisas para se dedicar a ser um bom pai e marido.

Em um dia qualquer, ele é sequestrado e drogado. Colocado em uma caixa escura. Ao acordar, o protagonista parece estar em um mundo parecido com o seu, mas com elementos importantes totalmente diferentes. Não é casado, não tem filho e é um profissional renomado em sua área.

Jason não sabe mais o que é realidade, o que foi sonhado, qual sua verdadeira vida… Bastante angustiante, não?

A trama é bem veloz e com inimaginadas reviravoltas – com exceção de um fato importante, que saquei logo no começo. O que me incomodou foi eu perceber que a história é claramente um roteiro para um futuro filme. Não que livros não possam viram filmes – veja a maravilha que são os filmes do Harry Potter e do Senhor dos anéis. Só que quando a trama está mais preocupada em funcionar num filme do que ser uma boa leitura, eu implico.

E você não tiver este tipo de implicância, será uma leitura bastante divertida.

“O oceano no fim do caminho”

Neil Gaiman tem uma legião de seguidores, dos quais eu não me incluía porque sempre imaginei que ele escrevesse sobre assuntos “dark”. Acontece que alguns títulos tem tamanho poder de atração que você sequer percebe quem seria o autor.

“O oceano no fim do caminho”. Um título maravilhoso! Minha curiosidade ficou enormemente instigada…

Foto por Julia A. O.

Foto por Julia A. O.

A história é um pouco juvenil, vale o alerta. Tendo em mente esta consideração, a leitura é uma verdadeira delícia. O narrador é um homem que retorna a sua cidade natal para um velório. Essa volta faz com que ele rememore um importante evento de sua infância, em que realidade e fantasia se misturaram em uma aventura vivida na fazenda de sua amiga Lettie.

O leitor é presenteado com uma fábula agridoce, em que uma criança perde sua ingenuidade ao viver acontecimentos fantásticos.

 

Mentir até quando?

De vez em quando eu encontro umas boas surpresas no Netflix ou na Apple TV e me pergunto por que tal filme não teve maior bilheteria ou repercussão quando estreou no cinema, ao passo que umas belas porcarias ganham tamanho destaque…

Uma dessas boas descobertas foi “A grande mentira”, com as excelente atrizes Helen Mirren e Jessica Chastain (há protagonistas masculinos, mas elas dominam a tela).

grandemetira

Três agentes da Mossad são destacados para capturar um nazista na Berlim dos anos 60. O plano termina com o assassinato do criminoso e os agentes são condecorados pelo sucesso da missão. Trinta anos depois, surgem dúvidas se a captura foi realmente exitosa…

O que me surpreendeu é que a história mistura romance, suspense, ação, questões de cunho moral… Além de ser original! Se não fosse o final que eu achei um pouco forçado, o filme seria 10 estrelas.

“O gigante enterrado”

Em “O gigante enterrado”, de Kazuo Ishiguro, uma névoa encobre os personagens, afetando a memória deles. A névoa é tão poderosa que ultrapassa a ficção e atinge o leitor, mas de outra forma: era eu começar a ler para ficar triste. Como se, ao abrir o livro, um manto de melancolia me envolvesse…

Como as palavras são poderosas.

A fábula criada por Ishiguro transcorre em uma Inglaterra ficcional pouco após a morte do Rei Arthur. No meio de ogros e dragões, um casal de idosos, Axl e Beatrice, decide sair de sua vila e reencontrar o filho. A viagem seria complicada por si só, já que lhes falta dinheiro, agilidade e armas contra os perigos da estrada. Só que existe um elemento a torna ainda mais temível: o esquecimento. Não somente dos viajantes. Todos os saxões e bretões que aquela terra habitam não se lembram bem do passado remoto e também sofrem de lapsos de esquecimento de situações recentes.

Tenho medo de contar muito da história e retirar a beleza das pequenas espiadas debaixo do manto do esquecimento; quando tanto os personagens quanto o leitor vão juntando pequenos pedaços de memórias e, assim, vão reconstruindo o passado.

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

“O gigante enterrado” é uma leitura diferente do que estou acostumada. Os questionamentos que eu me fiz se sobressaíam à própria história. É como se o destino dos personagens ficasse em segundo plano….

A ideia de esquecer o passado é pontuada de diversas forma: como uma forma de afastar a culpa ou de permitir a paz ou de manter o “status quo” ou de retirar a dor. O que isso significa para o amor (esquecer as mágoas x esquecer os momentos felizes). Desde a dimensão pessoal até a de todo um povo.

O romance me manteve triste pelas respostas que eu encontrava – ou não encontrava – para cada uma dessas metáforas que as cenas fabulosas traziam. A verdade é que é um livro lindo, ainda que sombrio.

“As montanhas de Buda”

Quem me conhece sabe o tanto que me intriga o Oriente. Por sorte aliada ao planejamento, já tive a maravilhosa experiência de conhecer China, Butão, Nepal e Índia. Nada se compara a viajar e experimentar tantos lugares bonitos e diferentes formas de viver. Espero ainda conhecer mais muitos e muitos e muitos lugares durante minha passagem na Terra.

O budismo é uma das características que tornam o Oriente alvo de interesse meu. A parte da prática religiosa é difícil de ser entendida por mim, que nasci e cresci católica. Já a parte mais “filosófica”, digamos, é de uma simplicidade e beleza universal. O dalai-lama Tenzin Gyatsu, a maior representação atual do budismo tibetano, toca num ponto importante ao dizer que a religião é uma expressão da cultura na qual você está inserido e, assim, ele não prega a mudança de credos; o que importa é a bondade e a compaixão com que a pessoa age no dia-a-dia.

Quando visitei o Butão, pequenino país localizado no sul da Ásia, os ensinamentos do budismo são de tal forma enraigados na cultura, que parece que um véu de paz recai sobre todos os que lá estão. Eles sorriem sempre e fazem os gestos com calma. Mesmo aqueles que vivem em situação de poucos recursos materiais, não parecem infelizes, desamparados, desiludidos.

A natureza é incrível, com montanhas verdes e caudalosos rios. As construções tradicionais e os mosteiros completam o cenário idílico – em especial o Tiger´s Nest (mosteiro de Taktsang), encravado  a mais de 3.000 de altitude, cuja lembrança me tira o fôlego até hoje.

Não conhecemos o Tibete, em virtude da dificuldade em um visitante ingressar no país, mas ele possui muito em comum com o Butão na questão da geografia e religião. Infelizmente, o Tibete não compartilha com o vizinho o mesmo destino pacífico. Nos anos 50, o Tibete foi invadido pela China, que lá cometeu atrocidades em nome da implantação do comunismo e para dar vazão a sua ânsia expansionista.

A pequena população, sem exército em virtude da prática da não-violência, não foi páreo para a máquina chinesa. Ainda assim, até hoje, há resistência à política de extermínio da cultura tibetana, em especial pelos kampas (nômades), monges e monjas. É uma história triste, que somente recentemente foi conhecida do público mas que, dada a força da China, não tem encontrado adesão suficiente de outros países dispostos a “comprar essa briga”.

(Um parênteses: eu AMEI visitar a China e continua querendo conhecer mais de sua cultura. É um povo com rica história e ensinamentos, apesar de ter esse lado negro que é inegável)

Em “As montanhas de Buda”, Javier Moro intercala pinceladas da vida do atual dalai-lama com a história verídica de duas monjas, Kimson e Yandol. Elas foram  presas por desrespeitar as restrições chinesas e que, uma vez fora da prisão e longe das torturas, aventuraram-se pelas montanhas do Himalaia para buscar refúgio no Nepal e posteriormente na Índia, próximas de onde se exilou o dalai-lama.

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

A história, portanto, é interessantíssima. No entanto, o autor não soube transformar a pedra bruta em diamante.

O leitor mal conhece as monjas quando se iniciam as torturas – mesmo que qualquer um se sinta enojado com a prática, se as personagens tivessem sido mais bem apresentadas, o impacto seria maior. O mesmo acontece com a perigosa travessia: você sabe que é uma tarefa quase impossível, só que a narrativa não é hábil em te colocar dentro da ação.

Os trechos em que se conta a vida do dalai-lama parecem querer trazer informações demais para pouco espaço. Não consegui aprender tudo o que estava sendo transmitido. Eu ansiava por me apegar mais as monjas, ao dalai-lama e a suas histórias (sentimento totalmente contrário ao budismo, que prega o desapego, eu sei) e não era recompensada.

Como o livro é curto, recomendo fortemente como fonte de conhecimento do que aconteceu/acontece com o Tibete. No restante, o livro deixa a desejar.