contos

“Das coisas esquecidas atrás da estante”

Na minha fase “secretamente queria ser amiga da Clarah Averbuck”, penei até encontrar seu livro “Das coisas esquecidas atrás da estante”.

Foto por Júlia Antunes Oliveira

Foto por Júlia Antunes Oliveira

Uma vez de posse do livro, demorei uns dias para começar a ler, com medo que a imagem de moça independente-inteligente-um pouco revoltada-gênio sofredor que eu tinha dela se desfizesse. A nossa imaginação sempre é mais fértil que a realidade, não é?

Com muitos respiros de alívio, a leitura manteve a experiência de ouvir a voz de Clarah na minha cabeça – ela escreve sem pretensão de ser culta, mas de um jeito que faz você sentir que está dialogando com uma amiga.

Agora, já adulta, imagino se gostaria do livro. Se todo aquele sofrimento em volta de amor, sexo, solidão, “qual é meu lugar no mundo?” faria sentido. Pois uma coisa é ser jovem e identificar-se com os questionamentos aparentemente intermináveis. Outra é ser finalmente adulta e segura de si. Talvez eu encarasse o livro com nostalgia.

Não sei.

Só sei que quando o li, no comecinho dos meus vinte anos, foi como encontrar uma amiga cool para uma noite de vinho e choramingos.

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“Sonhos de Einstein”

Se seu cérebro está precisando de exercícios moderados, sugiro “Sonhos de Einstein”, de Alan Lightman.

Lá se vão mais de 10 ou 15 anos que li o livro, mas ainda me lembro como eu fiquei completamente perdida no começo, com tantas ideias sobre o tempo. Tempo circular, futuro invisível, tempo parado para petrificar a felicidade… Conceitos que não são óbvios, que exigem que você coloque as engrenagens da cabeça para rodar e compreender a relatividade do tempo.

Como o título diz, Einstein é o personagem principal, ainda que pouco apareça. São poucas dezenas de pequeninos contos, que nos trazem a ciência com gosto de romance ficcional. Uma beleza de livro. Ele é pequeno e engana pela profundidade e grandeza de seu conteúdo.

Não sei bem como esse livro foi parar nas mãos de minha mãe; o que importa é que ela compartilhou comigo os supostos sonhos do cientista quando jovem. Sonhos de quem se questiona, e filosofa, e faz experimentos, e estuda, e nos tira da banalidade.

Foto por Cristiano Cittadino Oliveira

Foto por Cristiano Cittadino Oliveira

“O amor de uma boa mulher”

O mesmo casal que me fez sair da zona de conforto e ler um livro difícil (“O homem que amava os cachorros, leia sobre ele aqui), continuou me fazendo feliz ao me presentear com outro livro. Sim, sim, eu AMO ganhar livros de presente, vocês ainda não sabiam?

Dessa vez, o tema foi bem diferente: contos de uma das mais prestigiadas escritoras da atualidade, Alice Munro. Eu estava curiosa para conhecer a obra da canadense, mas ainda não tinha tido a oportunidade.

Em “O amor de uma boa mulher” (Companhia das Letras), encontramos personagens sofridas, cujo cotidiano oprime. Regras sociais arcaicss que ceifam a liberdade das mulheres que não se enquadram no padrão da cidade rural de algumas décadas atrás.

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

De novo, meus amigos não quiseram que eu estacionasse em leituras facilmente “gostáveis”. Pelo contrário, me apresentaram a histórias que exigem um certo esforço mental para identificar corretamente o que a autora está a criticar. E, uma vez que você consegue desvendar tudo por detrás da história aparentemente banal dessas mulheres, percebe a riqueza dos contos sobre as “boas mulheres”.

O livro é de tal preciosidade que sua autora ganhou recentemente o Nobel de literatura.

Dica da amiga (Marcela Aied)

Livro: “Obra Completa”, Murilo Rubião

Estilo: contos/ realismo fantástico

Tema: Em apenas 33 pequenos contos, Murilo Rubião consegue tratar das questões humanas cotidianas e daquelas mais universais, desafiando a realidade  em cenários muitas vezes não alcançados pela  razão humana. Ajudando o leitor a ingressar nesse universo fantástico, Rubião sugere um sentido ao texto com a apresentação de trechos bíblicos na abertura de cada conto.

Coelhos falantes, animais que se transformam em outros de uma linha a outra, uma mulher que não pára de engordar, uma obra que não tem fim…eis alguns exemplos do fantástico de Murilo Rubião, que, acreditem, causa menos estranheza do que imenso prazer àqueles que se entregam à magia do seu sonho.

Porque vale a pena ler: Impactante é o conto “Bárbara”, no qual o autor narra as aventuras de uma mulher que engorda incessantemente à medida que exige e devora a vida. Intrigante e surpreendente é  “O Lodo”, que nos faz sentir, com os devaneios do personagem, toda a dor da viagem ao inconsciente, nas suas fugas constantes do analista e das questões mais profundas.

É, assim, dessa forma  nada menos que “fantástica” que os contos nos desprendem das amarras da realidade e dos rigores da lógica, nos conduzindo a uma viagem onde a imaginação e a interpretação, quase livre, são nossos únicos guias.