drama

“Americanah”

Depois de Chimamanda Adichie ter virado ídola após eu ver sua palestra no Ted Talks e lido seu manifesto “Como educar crianças feministas”, estava mais do que na hora de eu ler o lindo presente que ganhei da Juliana, do blog Fina Flor.

E o livro estava à altura do desafio de manter minha admiração pela escritora nigeriana!

americanah

É um livro de romance. Acompanhamos os encontros e desencontros amorosos de Ifemelu e Obinze na adolescência e idade adulta. São personagens fortes, falhos, apaixonantes, com detalhes que vão os tornando cada vez mais reais. Eu sentia que em outras circunstância de vida poderia tê-los conhecido! Eles descobrem um laço fortíssimo a os unir, então as escolhas os separam, o tempo passa…

É um livro de crítica social. Pouco conheço da Nigéria e foi uma experiência muito interessante saber mais sobre um país que não é glamoroso ou visto nos filmes que assisto ou livros que leio. Também é uma crítica sobre os Estados Unidos, país para onde a Ifemelu se muda de modo a terminar sua faculdade após intermináveis greves na sua universidade nigeriana.

É um livro relevante para o debate do racismo. Chimamanda se vale de uma história fictícia e de humor para trazer à baila as questões de raça. É um tema espinhoso por ser incômodo e muitas vezes porque nós, que não sofremos discriminação, podemos não perceber certas atitudes como racistas ou o que é ter a cor da sua pele como elemento que impacta tanto sua vida. Na maior parte da história, a escritora dosa bem as questões raciais/sociais e a história de vida e de amor ali trazida. E quem não sabe o que é passar por isso, vai sentindo empatia e questionando tantas coisas. E quem sabe o que é passar por isso, se sente acolhido, sente que passa a ter representação na História.

É um livro de humor. Tem drama, sim, mas Chimamanda sabe ser engraçada ao criticar, principalmente através da Ifemelu, que não consegue se conter e muitas vezes se passa por “bocuda”.

Um verdadeiro presente que ganhei de uma pessoa que eu sequer conheço na vida real. Obrigada, Juliana!

“A balada de Adam Henry”

Eu conheci o famoso escritor Ian McEwan primeiramente pela adaptação cinematográfica de seu livro “Desejo e reparação”. O filme é magnífico, com atuações incríveis de Keira Knightley, James McAvoy e Saoirse Ronan.

Depois li “Serena” e gostei bastante.

A pilha de leituras tomou outro rumo e não havia lido mais nada dele, apesar de ter me convencido da habilidade de McEwan criar histórias que parecem simples ate você se ver enrolado no dilema moral que uma pequena escolha do personagem o levou.

Na semana passada estava na praia e finalmente resolvi pegar da prateleira da minha mãe um lindinho livro azul, que há mais de dois anos me olha e me pede para ser lido: “A balada de Adam Henry” (tão melhor o título em inglês, “The Children act”, que coloca a ênfase no papel do Direito e não em um dos personagens).

balada

Como operadora do Direito, fui pessoal e profissionalmente atraída pelas questões jurídicas de dificílima solução apresentadas à juíza Fiona, que atua na Superior Corte inglesa. Fiona é ambiciosa, inteligente, dedicada, sensata. Possui, portanto, características que a tornaram uma renomada juíza de Direito de Família.

No meio de uma crise conjugal, Fiona adota uma postura pouco convencional para alguém tão racional e que busca ser imparcial em seus julgamentos; ela visita Adam Henry, garoto a poucos meses da maioridade, cujos pais recusam um tratamento médico que exige transfusão de sangue, por se tratar de conduta vedada por seus princípios religiosos. O rapaz, criado como Testemunha de Jeová, compactua com a decisão dos pais.

A decisão tomada pela juíza os afeta de formas diferentes e traz consequências inimaginadas.

Trata-se de uma história curta e ainda assim carregada de tantos questionamentos. Terminei o livro triste, reflexiva. Não só porque como alguém que lida com Direito posso afetar positiva ou negativamente outra pessoa, mas também como somos muitas vezes egoístas ou preguiçosos, falhando ao perceber a necessidade do outro.

“Os últimos dias de nossos pais “

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos e que recomendo a torto e a direito é “A verdade sobre o caso Harry Quebert”, de Joel Dicker. Tamanha é minha paixão pelo livro, que meu marido saiu à caça de mais livros do mesmo autor. Encontrou e me presenteou com “Os últimos dias de nossos pais “.

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Dentre os milhares de temas relacionados à II Guerra Mundial, a trama gira em torno de franceses que se tornaram espiões para o governo britânico, em uma manobra inteligente do primeiro ministro Churchill. Eles eram treinados na Inglaterra e aqueles que sobrevivessem a essa difícil peneira eram “devolvidos” a seu país de origem, para lá atuarem infiltrados, em espionagem ou sabotagem.

O livro segue um grupo de rapazes e uma moça que, ao longo dos treinamentos, tornam-se amigos e cuja atuação na Resistência francesa os leva a destinos variados.

É um bom livro? É. Chega aos pés da obra mais conhecida do mesmo autor? Não. Nem de longe. A comparação é injusta. Talvez se eu não soubesse quem era o escritor e tivesse expectativas normais em relação ao novo livro cuja leitura eu iniciava… Mas não há como eu mudar essa experiência que eu já tive. Eu esperava um novo Harry Quebert e não o encontrei.

“Os últimos dias de nossos pais ” é um livro que eu daria de presente, que eu indicaria… Só não para alguém que já tivesse tido a sorte grande de já ter lido “A verdade sobre o caso Harry Quebert”.

“Os cem sentidos secretos”

Milênios separam o momento atual da minha última “leitura oriental”. Simplesmente não surgia o momento certo; ainda bem que “Os cem sentidos secretos”, de Amy Tan me pegou em uma fase sensível e delicada, ajustando-se perfeitamente ao que meus olhos e coração queriam.

É uma história muito bonita, com momentos de melancolia, tristeza, esperança e doçura. Trata de relações familiares, bem ao estilo Amy Tan; de amores (dos mais variados tipos); das diferenças de pensamento e de modo de viver norte-americano x chinês; de lendas; de destino; do que os cinco sentidos “comuns” não conseguem sentir…

Assim como ler Gabriel García Márquez, você tem que se render ao aspecto fantasioso e nele mergulhar, para assim curtir toda a experiência de um livro da escritora americana, descendente de chineses.

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(foto por Júlia A. O.)

“Os cem sentidos secretos” gira em torno de duas meia-irmãs: Olivia, nascida nos Estados Unidos e que sofre com a falta de amor por parte da mãe; Kwan, nascida na China e que já adolescente deixa o país natal para viver com a família de sua meia-irmã.

Kwan envergonha Olivia, com sua ingenuidade e desconhecimento da língua inglesa. Kwan parece não notar a aversão da irmã, por quem nutre grande carinho, que supera todas as maldades sofrida, e para quem confidencia seu poder de falar com fantasmas.

No final, o livro se resume na busca de ambas pelo amor: Olivia para preencher o vazio por sentir que nem sua mãe, nem seu marido a amam com todo o coração; Kwan, para provar sua lealdade amorosa, vinda de vidas passadas.

Mentir até quando?

De vez em quando eu encontro umas boas surpresas no Netflix ou na Apple TV e me pergunto por que tal filme não teve maior bilheteria ou repercussão quando estreou no cinema, ao passo que umas belas porcarias ganham tamanho destaque…

Uma dessas boas descobertas foi “A grande mentira”, com as excelente atrizes Helen Mirren e Jessica Chastain (há protagonistas masculinos, mas elas dominam a tela).

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Três agentes da Mossad são destacados para capturar um nazista na Berlim dos anos 60. O plano termina com o assassinato do criminoso e os agentes são condecorados pelo sucesso da missão. Trinta anos depois, surgem dúvidas se a captura foi realmente exitosa…

O que me surpreendeu é que a história mistura romance, suspense, ação, questões de cunho moral… Além de ser original! Se não fosse o final que eu achei um pouco forçado, o filme seria 10 estrelas.

“Isso também vai passar”

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(foto por Júlia A. O.)

“Você não vai gostar da personagem principal, nem da história, mas este livro é muito bom”.

Curiosa a recomendação que minha mãe me deu ao emprestar o livro “Isso também vai passar”, da espanhola Milena Busquets.

E é a descrição mais acertada possível.

Eu não gostei muito da personagem principal, que, aos quarenta anos, perde sua mãe. Seu jeito de lidar com o luto é com muito sexo. Blanca é irresponsável, ama os filhos porém não cuida muito bem deles, não trabalha, age como se adolescente ainda fosse.

Tampouco me apaixonei pela história desse período da vida dela em que ela passa férias em Cadaqués, para tentar aprender a viver sem sua mãe, pessoa central em sua existência, para o bem e para o mal.

Ainda assim: que livro bom!

Se as atitudes de Blanca me irritam em geral, suas reflexões sobre a perda da genitora são tão tocantes… Falam tão alto a alguém como eu, para quem o assunto “maternidade” tem sido tão pensado, repensado e vivido…

O trecho que transcrevi uns dias atrás foi de especial impacto: eu percebi o quanto me reconheço no olhar da minha mãe, acreditando ser algo que estará sempre lá. Assim como eu tenho um olhar único para minha filha, que espero ser para ela tão reconfortante quanto o que eu recebo.

Um livro que comove.

Cerejeira, pasta de feijão e segundas chances

De repente um filme te toca tanto, que aquele gosto agridoce que ele deixou em sua boca permita que você acredite na existência de pequenos grandes gestos.

O filme japonês “Sabor da vida” desenvolve-se essencialmente em torno da “biboca” que vende doces dorayaki. E tal como o produto vendido, o filme é doce. De uma doçura que desarma, que questiona, que  envolve.

sabor

Sentaro trabalha dia após dia preparando e vendendo seus doces com recheio de feijão. Anuncia a vaga de ajudante, para a qual se candidata Tokue, uma senhora de 75 anos. Ele gentilmente a dispensa. Ela insiste. Apresenta sua pasta de feijão. E é tão gostosa, que Sentaro dá uma chance a Tokue.

A alegria de Tokue a ser aceita para o cargo é tão visceral que me deu vontade de chorar. E quando, mais para frente, você descobre o por quê de tanta felicidade, dá ainda mais vontade de chorar. Chorar pelas chances perdidas, pela solidão, pela injustiça, pela ignorância que destrói vidas.

Mesmo tratando de temas pesados, a história é conduzida de forma tão leve, tão delicada…

Há cenas de contemplação, de natureza, aos quais nossos olhos acostumados com a rapidez norte-americana às vezes estranham. Uma vez que estou em um momento em que tenho pensado muito no benefício de se ter atenção ao momento presente, foi um lindo exercício. Como a paciência e o “estar presente”, que a cultura japonesa tem costurados em sua origem, são elementos que eu gostaria de trazer para minha vida!

Não quero contar muito mais do filme, para não estragar suas revelações que tornam a história cada vez mais envolvente.

Quero recomendar “O sabor da vida” para todo mundo. Para se assistir de coração aberto e dócil paciência.