drama

“Os últimos dias de nossos pais “

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos e que recomendo a torto e a direito é “A verdade sobre o caso Harry Quebert”, de Joel Dicker. Tamanha é minha paixão pelo livro, que meu marido saiu à caça de mais livros do mesmo autor. Encontrou e me presenteou com “Os últimos dias de nossos pais “.

foto ultimos dias

Dentre os milhares de temas relacionados à II Guerra Mundial, a trama gira em torno de franceses que se tornaram espiões para o governo britânico, em uma manobra inteligente do primeiro ministro Churchill. Eles eram treinados na Inglaterra e aqueles que sobrevivessem a essa difícil peneira eram “devolvidos” a seu país de origem, para lá atuarem infiltrados, em espionagem ou sabotagem.

O livro segue um grupo de rapazes e uma moça que, ao longo dos treinamentos, tornam-se amigos e cuja atuação na Resistência francesa os leva a destinos variados.

É um bom livro? É. Chega aos pés da obra mais conhecida do mesmo autor? Não. Nem de longe. A comparação é injusta. Talvez se eu não soubesse quem era o escritor e tivesse expectativas normais em relação ao novo livro cuja leitura eu iniciava… Mas não há como eu mudar essa experiência que eu já tive. Eu esperava um novo Harry Quebert e não o encontrei.

“Os últimos dias de nossos pais ” é um livro que eu daria de presente, que eu indicaria… Só não para alguém que já tivesse tido a sorte grande de já ter lido “A verdade sobre o caso Harry Quebert”.

“Os cem sentidos secretos”

Milênios separam o momento atual da minha última “leitura oriental”. Simplesmente não surgia o momento certo; ainda bem que “Os cem sentidos secretos”, de Amy Tan me pegou em uma fase sensível e delicada, ajustando-se perfeitamente ao que meus olhos e coração queriam.

É uma história muito bonita, com momentos de melancolia, tristeza, esperança e doçura. Trata de relações familiares, bem ao estilo Amy Tan; de amores (dos mais variados tipos); das diferenças de pensamento e de modo de viver norte-americano x chinês; de lendas; de destino; do que os cinco sentidos “comuns” não conseguem sentir…

Assim como ler Gabriel García Márquez, você tem que se render ao aspecto fantasioso e nele mergulhar, para assim curtir toda a experiência de um livro da escritora americana, descendente de chineses.

hundredsenses

(foto por Júlia A. O.)

“Os cem sentidos secretos” gira em torno de duas meia-irmãs: Olivia, nascida nos Estados Unidos e que sofre com a falta de amor por parte da mãe; Kwan, nascida na China e que já adolescente deixa o país natal para viver com a família de sua meia-irmã.

Kwan envergonha Olivia, com sua ingenuidade e desconhecimento da língua inglesa. Kwan parece não notar a aversão da irmã, por quem nutre grande carinho, que supera todas as maldades sofrida, e para quem confidencia seu poder de falar com fantasmas.

No final, o livro se resume na busca de ambas pelo amor: Olivia para preencher o vazio por sentir que nem sua mãe, nem seu marido a amam com todo o coração; Kwan, para provar sua lealdade amorosa, vinda de vidas passadas.

Mentir até quando?

De vez em quando eu encontro umas boas surpresas no Netflix ou na Apple TV e me pergunto por que tal filme não teve maior bilheteria ou repercussão quando estreou no cinema, ao passo que umas belas porcarias ganham tamanho destaque…

Uma dessas boas descobertas foi “A grande mentira”, com as excelente atrizes Helen Mirren e Jessica Chastain (há protagonistas masculinos, mas elas dominam a tela).

grandemetira

Três agentes da Mossad são destacados para capturar um nazista na Berlim dos anos 60. O plano termina com o assassinato do criminoso e os agentes são condecorados pelo sucesso da missão. Trinta anos depois, surgem dúvidas se a captura foi realmente exitosa…

O que me surpreendeu é que a história mistura romance, suspense, ação, questões de cunho moral… Além de ser original! Se não fosse o final que eu achei um pouco forçado, o filme seria 10 estrelas.

“Isso também vai passar”

vaipassar

(foto por Júlia A. O.)

“Você não vai gostar da personagem principal, nem da história, mas este livro é muito bom”.

Curiosa a recomendação que minha mãe me deu ao emprestar o livro “Isso também vai passar”, da espanhola Milena Busquets.

E é a descrição mais acertada possível.

Eu não gostei muito da personagem principal, que, aos quarenta anos, perde sua mãe. Seu jeito de lidar com o luto é com muito sexo. Blanca é irresponsável, ama os filhos porém não cuida muito bem deles, não trabalha, age como se adolescente ainda fosse.

Tampouco me apaixonei pela história desse período da vida dela em que ela passa férias em Cadaqués, para tentar aprender a viver sem sua mãe, pessoa central em sua existência, para o bem e para o mal.

Ainda assim: que livro bom!

Se as atitudes de Blanca me irritam em geral, suas reflexões sobre a perda da genitora são tão tocantes… Falam tão alto a alguém como eu, para quem o assunto “maternidade” tem sido tão pensado, repensado e vivido…

O trecho que transcrevi uns dias atrás foi de especial impacto: eu percebi o quanto me reconheço no olhar da minha mãe, acreditando ser algo que estará sempre lá. Assim como eu tenho um olhar único para minha filha, que espero ser para ela tão reconfortante quanto o que eu recebo.

Um livro que comove.

Cerejeira, pasta de feijão e segundas chances

De repente um filme te toca tanto, que aquele gosto agridoce que ele deixou em sua boca permita que você acredite na existência de pequenos grandes gestos.

O filme japonês “Sabor da vida” desenvolve-se essencialmente em torno da “biboca” que vende doces dorayaki. E tal como o produto vendido, o filme é doce. De uma doçura que desarma, que questiona, que  envolve.

sabor

Sentaro trabalha dia após dia preparando e vendendo seus doces com recheio de feijão. Anuncia a vaga de ajudante, para a qual se candidata Tokue, uma senhora de 75 anos. Ele gentilmente a dispensa. Ela insiste. Apresenta sua pasta de feijão. E é tão gostosa, que Sentaro dá uma chance a Tokue.

A alegria de Tokue a ser aceita para o cargo é tão visceral que me deu vontade de chorar. E quando, mais para frente, você descobre o por quê de tanta felicidade, dá ainda mais vontade de chorar. Chorar pelas chances perdidas, pela solidão, pela injustiça, pela ignorância que destrói vidas.

Mesmo tratando de temas pesados, a história é conduzida de forma tão leve, tão delicada…

Há cenas de contemplação, de natureza, aos quais nossos olhos acostumados com a rapidez norte-americana às vezes estranham. Uma vez que estou em um momento em que tenho pensado muito no benefício de se ter atenção ao momento presente, foi um lindo exercício. Como a paciência e o “estar presente”, que a cultura japonesa tem costurados em sua origem, são elementos que eu gostaria de trazer para minha vida!

Não quero contar muito mais do filme, para não estragar suas revelações que tornam a história cada vez mais envolvente.

Quero recomendar “O sabor da vida” para todo mundo. Para se assistir de coração aberto e dócil paciência.

Do luxo de Dowton ao lixo de Camden

Maggie Smith poderia ser eterna. Ela convence como a rica, politicamente incorreta (para os dias atuais) e engraçadíssima Condessa Grantham do seriado “Dowton Abbey” com a mesma facilidade que nos faz crer ser uma pessoa em situação de rua no filme “A senhora da van”.

Antes de falar sobre o filme, queria fazer um pequeno comentário de cunho pessoal: eu adoro ir ao cinema com meu marido. É minha companhia preferida. Ele carinhosamente segura minha mão, ele gosta de ouvir o que eu falo e dividir suas impressões sobre a história, ele é curioso e muitas vezes vai atrás de mais informações sobre os eventos reais relacionados ao filme…

Fazia um bom tempo que não conseguíamos ir ao cinema (“Zootopia” com a filhota não conta). E quando finalmente conseguimos umas horinhas para um programa adulto, eu sorri e fechei aos olhos, saboreando o momento, enquanto as luzes do cinema iam se apagando.

Mas voltando ao filme…

“A senhora da van” é uma história verídica. Apesar do alerta no começo, eu me esqueci, tamanha a bizarrice dos acontecimentos. Mary Shepherd – se é que é seu verdadeiro nome – é uma senhora que vive em uma van. Como não tem banheiro próprio e é um pouco maluquinha, dá para imaginar a sujeira em que vive.

a-senhora-da-van.jpg

Ela estaciona sua van por aí. No recorte do filme, ela está em Camden Town, bairro londrino que na década de 70 começa a se valorizar. Ninguém quer aquela senhora fedida na frente de sua casa. Ninguém quer ser insensível e os vizinhos tentam fazer alguma caridade por ela, que nunca agradece.

Quando a Prefeitura proíbe que se estacione carros na rua onde ela costuma parar, uma solução surge: ela é “convidada” por um escritor, Bennet, a deixar sua van na vaga de garagem na frente do imóvel dele. Assim, ela continua morando do jeito que quer (na van, seguindo suas próprias regras) e não precisa sair de Camden.

Eu não entendi totalmente o motivo de Bennet ter feito tal oferta. O que era para ser temporário transforma-se em um arranjo permanente, sem que nenhuma das partes avance nenhum centímetro em direção à mudança: ela mudar de local de estacionamento ou aceitar ir para uma casa de idosos assistencialista ou ele pedir que ela saia ou fazer com que aceite outra alternativa de moradia.

O fato dessa situação peculiar ter interesse ao lado escritor de Bennet parece suplantar os incômodos que isso traz ao lado morador de Bennet…

O filme anda numa constante, sem nenhuma grande reviravolta ou grande clímax. É, por outro lado, um ótimo filme para buscar completar as complexidades destes dois personagens (em especial dela), não apresentadas numa bandeja ao espectador.

E, já que estou dada a devaneios pessoais hoje, uma frase dita por Bennet reverberou perfeitamente em mim. Ela diz que “to care” (que pode ser traduzido como “importar-se” ou “tomar conta”) tem muito a ver com merda (desculpem a palavra!). Quem tem filhos pequenos compreende totalmente essa frase, pois um dos pontos em torno do qual a sua vida passa a gravitar é do cocô de seu rebento. E tanto o cuidar, como o importar-se com seu filhote passa por ter de lidar com…cocô.

O que eu já assisti – Oscar 2016

Áureos tempos em que eu havia assistido a todos (ou quase todos) filmes concorrentes ao Oscar antes da premiação. Com criança pequena, eu conheço um ou outro filme, o que me permite participar moderadamente na torcida pelo favorito.

Do Oscar 2016 eu estava bem desatualizada. Como muita gente também não está tão por dentro (eita vida corrida!), sinto-me na “obrigação” de ajudar na escolha daqueles poucos que passarão pela peneira de serem assistidos – afinal das contas, há fases em que temos de ser seletivos com nosso tempo!

O filme ganhador do Oscar – “Spotlight” – é sim um ótimo filme. Só não diria que seria “O” filme de 2015/2016… Quando li a sinopse, tirei-o da minha lista. “Filme sobre padres católicos molestando crianças?”. “Não, não!”. Por sorte, meu irmão me fez mudar de ideia, explicando que a história concentra-se na investigação jornalística (real) feita por um grupo de um jornal de Chicago. E ainda que o tema seja pesado e a realidade por trás dele muito triste, o foco é o bom jornalismo, tão em baixa em tempos de “copie e cole” que vemos hoje em dia. Até aquele chato do Mark Ruffalo está bem no papel!

spotlight2

Um que eu adorei foi “Brooklyn”. Que delicadeza! Que fotografia! E, se posso dar uma de menina, que fofo! A irmã de Eilis quer que esta tenha mais oportunidades e, por isso, consegue um patrocínio para que ela viaje aos Estados Unidos e lá tente sua sorte. Eilis encara uma longa viagem de barco rumo ao desconhecido. No Brooklyn, tem ajuda de um carinhoso padre católico (um contraponto não intencional com ao padres de “Spotlight”), que lhe arruma teto e emprego.

Por um infeliz acontecimento, Eilis precisa voltar temporariamente à Irlanda. Essa volta a faz ficar dividida entre dois caminhos – dois bons caminhos – que sua vida pode tomar: voltar aos EUA, onde está um grande amor, ou continuar na sua terra natal, onde agora surgem oportunidades antes inexistentes de emprego e um bom rapaz para chamar de seu?

brooklyn2

E, por fim, um que eu NÃO gostei nem um pouco, exceção feita às roupas fenomenais de chiques e à atuação sempre impecável de Cate Blanchet: “Carol”. Que filme mais chato! Arrastado, entediante. A atração entre duas mulheres no início da década de 50: uma casada, rica, descontente com o marido, apaixonada por sua filhinha; a outra, bem jovem, pouca grana, pouca instrução, em um namoro sem graça. Agora imagine silêncios e olhares intermináveis que cansam. Se nem Cate Blanchet segura a chatice, duvido que alguém possa!

carol