filosofia

“Sonhos de Einstein”

Se seu cérebro está precisando de exercícios moderados, sugiro “Sonhos de Einstein”, de Alan Lightman.

Lá se vão mais de 10 ou 15 anos que li o livro, mas ainda me lembro como eu fiquei completamente perdida no começo, com tantas ideias sobre o tempo. Tempo circular, futuro invisível, tempo parado para petrificar a felicidade… Conceitos que não são óbvios, que exigem que você coloque as engrenagens da cabeça para rodar e compreender a relatividade do tempo.

Como o título diz, Einstein é o personagem principal, ainda que pouco apareça. São poucas dezenas de pequeninos contos, que nos trazem a ciência com gosto de romance ficcional. Uma beleza de livro. Ele é pequeno e engana pela profundidade e grandeza de seu conteúdo.

Não sei bem como esse livro foi parar nas mãos de minha mãe; o que importa é que ela compartilhou comigo os supostos sonhos do cientista quando jovem. Sonhos de quem se questiona, e filosofa, e faz experimentos, e estuda, e nos tira da banalidade.

Foto por Cristiano Cittadino Oliveira

Foto por Cristiano Cittadino Oliveira

A filósofa da banalidade do mal

Na faculdade, tive contato com um pouco do pensamento da filósofa Hannah Arendt. Como minha vida era dividida em outras aulas, estágio e, claro, muitas festas, acabei não lendo mais nada dela, a não ser o que o professor nos contou em sala.

A admiração por suas teorias permaneceu.

Agora em filme, “Hannah Arendt” é um pedaço da vida desta grande mente. Foca no momento mais polêmico de sua carreira. Hannah e seu segundo marido, Heinrich, judeus refugiados nos Estados Unidos, construíram uma existência de alta efervescência mental. Quando Eichmann, um dos malfeitores do nazismo, vai à julgamento, Hannah se oferece para viajar à Israel e relatar o acontecimento.

hannah arendt

Sua publicação escandalizou a maioria da comunidade judaica, que passa a rejeitá-la, criticá-la, ameaçá-la… Isso porque Hannah afirmou que, preparada para ver um monstro, encontrou um homem comum. Não um ser perverso, mas um burocrata despido de reflexão, que enxergava na tortura e morte meios banais de se obedecer às ordens que recebia.

Ao retratá-lo como um homem comum, Hannah parece ter retirado do povo judaico a possibilidade de catarse com o enforcamento do criminoso. O triste é ver que a pensadora não nega os fatos tenebrosos, nem a merecida punição, mas foi mal interpretada, como se tivesse absolvido o nazista.

Outro ponto que a tornou alvo de tamanho antagonismo foi sua colocação de que o massacre judaico talvez não tivesse ganho as proporções vistas na II Guerra se não tivesse contado com uma espécie de contribuição de membros dos conselhos judaicos.

Hannah escreve o que observa de um ponto de vista filosófico, sem se preocupar com o quanto seus escritos podem ferir os sentimentos de quem acabara de sobreviver aso horrores da guerra. Ou seja, sua maior qualidade (mente afiada) é também seu ponto fraco, no sentido em que para se expressar livremente, chegou a perder um de seus melhores amigos.

O filme não tem cenas emocionantes, nem é construído para se atingir um clímax. Funciona como uma aula. Uma inteligente exposição da busca de Hannah para compreender o mal.

“A libélula dos seus oito anos”

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

Um livro que te faça rir. Esse era o desafio de fevereiro (do Desafio Literário 2013). E agora?

Eu dou risada com filmes, seriados e quadrinhos argentinos. Já com livros… não consigo me lembrar de um que tenha me feito rir. Puxando pela memória, lembrei que o máximo que cheguei perto de uma risada foi com as doidices de Martin Page, em “Como me tornei estúpido“. Por isso, escolhi outro livro dele para completar a tarefa.

“A libélula dos seus oito anos” não me fez gargalhar. Fez com que eu percebesse um sorriso no meu rosto ou aquele risinho abafado quando você se depara com algo incrivelmente maluco. E essa é a graça de Martin Page: ele cria cenários surreais não tão longes assim da realidade. E nisso diverte o leitor.

Não se enganem pela magreza do livro. Suas poucas páginas são lidas devagar, porque Martin Page constrói frases tão cheias de metáforas e invenções, que o cérebro tem que usar a imaginação para compreender tudo o que os olhos viram.

Acompanhamos a vida de Fio Régale, que passa desapercebida pelo mundo, apesar de uma existência curiosa. Até que as engrenagens do destino a tornam famosa no mundo das artes, sem ela ter desejado ou buscado tal adoração. A menina tem total despreparo para lidar com as bajulações e jogos sociais que envolvem a fama. O autor critica os supostos entendedores da arte, de um jeito engraçado e até um pouco amalucado.

Um pequeno grande livro.

DL 2013

“Justiça – o que é fazer a coisa certa”

Seria muito nerd da minha parte dizer que eu vibrei com as discussões sobre o que é justiça no incrível livro de Michael J. Sandel?

Eu gosto bastante de filosofia, só que confesso uma certa preguiça de encarar um livro hermético e de difícil assimilação como os desta matéria são em geral. Filosofia política, então! Quando soube deste livro de um celebrado professor de Harvard, em que a pergunta sobre o que é certo e o que é errado é discutida de modo acessível, foi pura alegria.

 

o que é fazer a coisa certa
Foto por Júlia A. O.

 

“Justiça – o que é fazer a coisa certa” foi tudo e mais um pouco do que eu esperava. Michael Sandel investiga as três principais correntes de filosofia política que tentam encontrar uma definição universal para o conceito de justiça: utilitaristas, para os quais justiça é igual à maximização da felicidade geral; os que defendem a liberdade como expressão da justiça e a visão aristotélica de bem comum.

As teorias e suas derivações são testadas com casos reais ou imaginários, como terceirização da gestação, cotas em universidades, se sempre devemos falar a verdade, serviço militar obrigatório – esta é a parte mais interessante do livro! Você pode começar a leitura com uma convicção em mente e perceber que não são em todos casos que você concorda com a solução que a teoria por você defendida alcança. É um exercício mental estimulante!

O leitor não precisa ter estudado Direito ou Ciência Política para apreciar o livro. Na verdade, qualquer um que aspira a uma boa vida social deveria abrir a mente com as provocações propostas pelo professor.

“Coisas da vida”

Martha Medeiros fala direto ao meu coração. Nem sempre me sinto o que ela retrata em suas crônicas, mas por vezes me pego pensando “é assim mesmo, também me questiono sobre isso, é desse jeito que me sinto“.

Não sou a maior fã de livro de crônicas. Primeiro, porque acaba rápido. Em segundo lugar, porque eu gosto de me envolver com uma história e com ela conviver por dias, semanas. Com crônicas, isto não é possível.

A Jornalista e escritora Martha Medeiros merece uma exceção. “Coisas da vida” reúne seus textos sobre assuntos aparentemente prosaicos e que revelam muito da complexidade do ser humano. Frustração, desejo de ter filhos, ânsia por dinheiro… O dia-a-dia.

“A elegância do ouriço”

Atrasada na leitura dos meus blogs favoritos (já que na tarefa de estabeceler prioridades na caótica semana passada, eles ficaram para depois), hoje pus-me a recuperar o tempo perdido (do lazer).

No blog Resumo da Opera, a Michelle exultou o livro “A elegância do ouriço”, de Muriel Barbery. E a culpa de eu não ter gostado deste premiado livro novamente me assaltou.

Não é um livro fácil, pois vem recheado de referências e questionamentos filosóficos quase disfarçados. Tampouco é um livro hermético ou para poucos, haja visto ter sido um dos mais vendidos na França quando de seu lançamento.

São duas habitantes distintas de um elegante prédio em Paris que conduzem o romance e cujas trajetórias acabam por se cruzar. Uma, a ranzinza zeladora, que leva uma vida solitária e culta; outra, a adolescente de 13 anos curiosa e ao mesmo tempo desiludida com a vida.

Eu sei que é um livro acima da média. Eu sei que é um livro que fez merecido sucesso. Eu sei que é uma escrita de qualidade. Só que eu não consegui gostar!! Não me afeiçoei o suficiente dos personagens, não retirei lições, não me diverti… Eu simplesmente não estabeleci a necessária conexão com o livro para que os momentos com ele passados tenham sido mágicos.

(foto por Júlia A. O.)

“A garota das laranjas”

O norueguês Jostein Gaarder escreveu um dos meus livros preferidos de todos os tempos, “O mundo de Sofia”. Depois do enorme sucesso que alcançou com este livro, passou a escrever outros tantos, em que pretende demonstrar como a filosofia é acessível a todos e presente em nossos dias.

Seus livros posteriores não chegam aos pés de “O mundo de Sofia”, ainda que alguns sejam muito bons. Imagino se o livro tão bem costurado, instigante e inovador poder ser repetido… Dentre estes outros livros posteriores, “A garota das laranjas” é um dos mais fraquinhos.A garota das laranjas Jostein Gaarder

O menino Georg encontra uma carta escondida de seu pai, Jan Olav, falecido há muitos anos. Esta carta conta não só sobre os interesses do pai -desconhecidas do menino, que perdeu o genitor muito novo – como relata a história real de uma menina que carregava laranjas, por quem Olav passa a nutrir uma curiosidade sem fim.Todo o quebra-cabeça é permeada de questões existenciais.

O que não me atraiu no livro foi a carregada carga dramática, que por vezes desvia o foco dos questionamentos filosóficos. É como se o autor tivesse ficado indeciso se queria escrever uma história de drama ou uma que trouxesse percepções sobre a filosofia.

(foto por Júlia A. O.)

“O Tao do Pooh”

É normal quando se está amadurecendo questionar a religião na qual você foi criada e querer conhecer outras formas de se expressar a fé e conduzir a vida espiritual. Durante alguns momentos da minha adolescência, senti curiosidade em relação ao budismo, taoísmo e outras religiões orientais. Então buscava livros que trouxessem princípios básicos, sem pregação.

Após essas leituras, compreendi que dificilmente mudaria a crença (ou descrença…) na parte histórica da religião na qual fui educada e seus ritos, o que não me impedia, por outro lado, de adotar conceitos que me pareciam corretos ou desejáveis do ponto de vista de filosofia de vida.

O Tao do Pooh

Foto por Júlia A. O.

Um desses livros foi o “Tao do Pooh”, de Benjamim Hoff, que funciona como uma introdução ao pensamento taoísta. A linguagem do livro me soou quase que irritantemente ingênua e simples. Só que foi justamente esta simplicidade e “descomplicação” no viver que me fez enxergar o tanto de energia que eu gastava preocupando-me em excesso.

Não que eu tenha perdido minha característica ansiedade (ai de mim!), mas permiti-me, por um tempo, praticar o princípio do deixar acontecer. E depois meu comportamento já enraizado de me “pré-ocupar” voltou…

Talvez todos nós, da turma dos ansiosos, devêssemos ler este livrinho a cada dois anos. Ou a cada seis meses. Ou toda semana.

Dica do amigo (José Roberto)

Livro: “Bebo, Logo Existo – Guia de um filósofo para o Vinho” (Roger Scruton)

Porque vale a pena ler: A distância é preciosa commodity sem a qual as pessoas não mais pertencem a onde estão. Devemos aprender a amar como ágape, ao invés de perseguir o eros.  O ego não é uma coisa, e sim uma perspectiva. Máximas que se sugerem extraídas de um ensaio filosófico. Bem, seu autor, Roger Scruton, é de fato filósofo, talvez um dos mais respeitados em língua inglesa na atualidade. Britânico e de inspiração conservadora, produziu para a BBC o documentário Why Beauty Matters (sobre como é feia a Arte contemporânea), especializou-se em defender a natureza do Homem e suas fraquezas contra o otimismo irresponsável dos que pretendem transformá-lo (sua última obra é intitulada Uses of Pessimism and the dangers of false hope), e recentemente estrelou nas páginas amarelas de entrevista da Revista Veja (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/roger-scruton/).

 O livro de onde tiradas as ideias acima, porém, adota como tema algo bem menos sorumbático do que Filosofia. Em “Bebo, Logo existo – Guia de um Filósofo para o Vinho”, Scruton makes a point: administrado com sobriedade (sem ironia!), de maneira quase ritualística, o Vinho proporciona à mente humana esclarecimento inalcançável por outras formas – ou pelo uso de outros estupefacientes – oferecendo, acerca dos pensamentos, medos e tormentos que assolam o sujeito, nuances inteiramente novas, reveladoras. Funcionaria como catalisador da formação de ideias e conselheiro na tomada de decisões, e isto não apenas quanto a pequenas dúvidas ou angústias corriqueiras. Mudar-se de país, aceitar ou não um importante cargo e até revoluções no pensar e agir perante os demais seres humanos são atitudes melhor tomadas ou mesmo apresentadas ao cabo de profunda e prazerosa reflexão desencadeada pelo Vinho, pelo consumo racional do Elixir de Baco.         

E se parece o livro distanciar-se da Filosofia e do público-alvo de connoisseurs ou wine-affectionates a que à primeira vista se dirigia, para adentrar o terreno da Autoajuda, seu enredo prontifica-se em dissipar tal impressão, situando-o, talvez, na estante das Autobiografias, à medida que Scruton vai narrando sua trajetória de filho de família humilde no interior da Inglaterra para pupilo de um excêntrico scholar em Cambridge, passando ao estudante que se desiludiria com os ideais marxistas ao presenciar de perto os eventos de maio de 1968 em Paris, onde então vivia, chegando, enfim, ao pai de família que acabou levando mulher e filhos para residir em Virgínia (EUA) após se decepcionar com os rumos culturais e ideológicos de sua pátria-mãe anglo-saxã. 

I Drink, Therefore I am não deixa porém de temperar digressões de brilhante densidade filosófica com deliciosas passagens propriamente dedicadas à Enofilia. O leitor é convidado a passear por regiões tão evocativas como a Borgonha, Bordeaux e o Loire, e a saborear vinhos pouco conhecidos, mas dos quais provieram muitas das conclusões e insights do “Logo Existo”, uma vez consumidos na etapa “Bebo”. Polêmico as usual, o autor não perde a oportunidade de desmistificar as coqueluches do mercado do vinho de preços astronômicos, demonstrando como, frente aos excelentes e mais affordable rótulos aos quais alude, marcas de valor estapafúrdio só podem subsistir graças aos “ricos fedorentos e vulgares que nada sabem sobre Vinho, e por isso compram o melhor”. O tour não se limita à França. O leitor é conduzido, ainda, a um percurso pela tradição vinífera grega e até do Líbano – berço do Vinho, como explica o capítulo voltado à História da bebida.

Obra completa do ponto de vista humanístico, de sua leitura não há como sobrevir tédio ou desapontamento, Quando muito, um enorme desejo de pôr em prática o método, e se entreter em reflexões, na companhia de um bom Vinho.    

“Como me tornei estúpido”

Um título sugestivo. Uma sinopse que apresenta uma ideia provocadora. Um escritor francês com um nome simpático. Pronto, despertado meu interesse.

O personagem principal, Antoine, não suporta mais a infelicidade que sua inteligência lhe traz. Decide se valer da estupidez como forma de suportar a vida em sociedade. Tenta virar alcóolatra, suicidar-se, retirar uma parte de seu cérebro, todas tentativas frustradas de se adaptar à realidade injusta. 

Parece pesado, mas a história é engraçada,  transgressora e inteligente. As dúvidas do personagem principal incitam reflexões no leitor.

Não tenham medo, não é necessária uma sagacidade maior que a normal para entender a crítica que o livro traz; basta estar atento às pequenas provocações que a história exibe. O maior trunfo de Martin Page é combinar esse lado “culto” com um enredo por vezes surreal e engraçado.