frança

Desgaste parcial é recuperável?

“Um fim de semana em Paris” me ganhou pelo título. Nunca é demais ter os olhos e o coração abençoados pela visão da cidade mais linda do mundo.

Neste filme, os ingleses Meg e Nick embarcam para paris, para rememorar a longínqua lua-de-mel e tentar reavivar o casamento desgastado. Trata-se de um retrato sutil e realista de um casal que ainda se gosta e que aparentemente quer manter os laços, ao mesmo tempo em que esbarra nas frustrações da perda da juventude, nos barulhos e manias do outro que irritam, na mesmice, na dificuldade sexual, na inquietação sobre o que fazer após a aposentadoria e a saída dos filhos de casa…

fim de semana em paris

É um futuro distante para mim. Ou talvez não tão distante assim. A vida passa num piscar de olhos. E se você não se preocupa em manter saudável o casamento, quando percebe, lá está um amontoado de decepções. Ou talvez eu seja ingênua e um longo casamento signifique uma porção de alegrias temperada por um apanhado de frustrações. Quem tem a receita de felicidade eterna? Acho que ninguém… A medida possível talvez seja justamente o lado da balança de felicidades ser mais pesado do que o das tristezas – e que o lado chato da vida faz parte.

Ao final, não seu dizer se o filme me deixou apreensiva ou tranquilizada, conformada ou desassossegada,  em paz ou em conflito… Diria que isso é sinal de uma história bem contada, não?

MYFrenchFilmFestival

Corram! Até o próximo dia 16/02 está disponível o site MyFrechFilmFestival, que te permite assistir pela internet 10 longas e 10 curta-metragens.

De início, alerto que a qualidade da imagem fica prejudicada pela lentidão da internet brasileira. Ainda assim, é talvez a chance única de conhecer algum dos títulos lá disponibilizados.

O primeiro que assisti foi “Respira”, dirigido pela charmosa atriz Mélanie Laurent (mais conhecida pelo filme “Bastardos Inglórios”). O título não podia ser melhor: a personagem principal tem problema de asma e o espectador também começa a sofrer um certo incômodo respiratório conforme o filme se aproxima do final. Charlie é uma adolescente em uma cidadezinha francesa que tem seu mundo revirado com a chegada de uma nova aluna, Sarah. Sarah é sensual, descolada, envolvente. Faz de Charlie sua melhor amiga, a envolve em jogos mentais sem que a ingênua Charlie perceba a arapuca na qual está caindo. Então Charlie descobre a verdade que Sarah tanto esconde e a linda amizade não é mais tão linda assim.

Meu problema com personagens adolescentes é que em geral eu quero torcê-los pelo pescoço. É prepotência, é falta de amor próprio, é a necessidade do grupo, é a paixão que cega, é a dificuldade de se impor ou a necessidade de se destacar a qualquer custo, é a aceitação de amizades tóxicas… Não que adultos estejam livres desses “perigos”, mas em geral a gente consegue superar a maior parte deles, ao passo que a vida dos adolescentes revolve em torno disso. E aí entra minha vontade de bater naqueles que são bacanas e se deixam levar por escolhas ou pessoas ruins.

Não vou dizer que adorei o filme, mas vou aplaudir a diretora por um final inesperado e que me deixou incomodada.

Num tom bem mais leve, “As moças”, de Mona Achache, é uma mistura “Sex and the city” com “Os homens são de marte…e e para lá que vou”. A história já batia da moça de trinta que se vê solteira, arruma um grupo novo de amigas para se divertir e conhece caras com validade de uma noite. Um repeteco do que já se viu por aí e ainda assim engraçado para quem se identifica ou reconhece uma amiga naquela situação.

Por fim, escolhi o curta “Shadow”, ambientado em Taipei, sobre um rapaz que trabalha com teatro de sombras e se apaixona por uma moça que vê passar na rua. O desenrolar da trama é bem maluco e não posso afirmar que tenha entendido a “moral” da história. Talvez não exista, seja somente uma ideia doida que o diretor Lorenzo Recio quis passar para a tela.

O curioso é que não importa a temática: nos filmes franceses se fuma MUITO.

Terceira idade animada

Só um filme francês para tratar com naturalidade uma vida agitada (em todos os campos) de uma mulher de mais de 60 anos. E só a Catherine Deneuve para tornar crível uma história que é comum na vida real, mas não nas telas, acostumadas com moças sem rugas e corpo perfeito.

No filme “Ela vai”, Bettie vê seu restaurante se afundar em dívidas e o amante trocá-la por outra amante, bem mais jovem. Em um ato impensado, larga a mãe idosa e aceitar levar o neto, que pouco conhece, para a casa do avô paterno. E é nesse estilo de “road movie” que o espectador ri, se comove e principalmente reflete sobre questões mais profundas como o fim da beleza (pelo menos como ela é vista no Ocidente) e os laços familiares.

ela vai

Fantástica chatura

Goste bem de um filme com toques fantasioso e coloridos – não é à toa que “O fabuloso destino de Amelie Poulain” é um dos meus filmes favoritos.

História fantástica com a Audrey Tautou? Tô dentro. “A espuma dos dias” prometia. Prometia e quase me matou de tédio. Ou de dor nos olhos, tamanha a correria de muitas cenas e diálogos.

Foto retirada do site da revista Época

Foto retirada do site da revista Época

Rapaz relativamente rico e de bom coração decide que é hora de se apaixonar. Aparece uma moça para preencher o vazio de seu coração. São felizes até ela contrair uma doença gravíssima. Podia ser terno, triste, comovente. É chato.

O filme se perde com um amontoado de invenções malucas do protagonista, como um piano que faz drinques, uma campainha que parece uma aranha e sai andando pela casa, um rato que tem uma casa igual ao de seu “dono”. Elas tem grande destaque nos minutos do filme, mas pouco acrescentam à trama. E desde que a história segue para a parte de sofrimento, é de um arrastar cansativo.

Não gaste seu tempo.

Estoniana em Paris

Solidão na velhice. Um tema por si só triste, mas que ganha contornos delicados em “Uma dama em Paris”.

Fonte site uol cinema

Fonte site uol cinema

Com a morte da mãe, a estoniana Anne aceita o trabalho de cuidadora de uma idosa em Paris. A senhora em questão, Frida, também é estoniana, mas há tantas décadas na França que não guarda nenhum costume de sua terra natal.
Contrastando com o sonho de conhecer a linda cidade, Anne encontra uma pessoa amargurada, deprimida, cruel em suas palavras. Ela se esforça para agradar à nova empregadora, sendo delicada, quieta, servil. Só recebe grosserias em troca.

Frida não quer ser cuidada. Aliás, Frida nao quer se aceitar como idosa. Ainda guarda a vaidade e os sentimentos amorosos de outrora. Só que seu ex-amante Stephan, muitíssimo mais novo, não mais a enxerga como antigamente. Ele lhe tem carinho, só não nos moldes que Frida gostaria.

Nessa composição de relações não usuais, encontramos um filme bem interpretado e que instiga o espectador a perceber que a dificuldade na equação do declínio do corpo não ser acompanhado pelo da mente.

Zeladores portugueses em Paris

Quando nós moramos em Paris, achamos graça que a zeladora do nosso prédio era portuguesa (o que facilitava a comunicação!). Até que descobrimos que é comum que portugueses sejam zeladores de prédios na cidade-Luz. Isso porque, se de um lado eles são trabalhadores comprometidos e dedicados, para eles é uma chance de conseguir dinheiro para, na época da aposentadoria, comprar a tão-sonhada casa em Portugal.

São centenas de portugueses que dedicam suas vidas inteiras a servir aos moradores franceses, na esperança de passar o fim de suas vidas na terrinha. Tal é a extensão do fenômeno, que quando um deles volta ao país natal ou tira férias, já indica um conhecido português para ocupar sua vaga.

gaiola dourada

É essa a realidade retratada em “A gaiola dourada”, uma produção franco-portuguesa. O casal Maria e Zé trabalham de sol a sol para fugir da crise de seu país e juntar dinheiro. Não esperavam ganhar uma herança e ver o sonho de voltar à Portugal ricos tão próxima. O problema é que seus filhos foram criados em Paris e são muito mais franceses que portugueses. Além disso, a notícia se espalha e tanto os moradores do prédio, dependentes da dedicação de Maria, como o empregador de José farão de tudo para que eles não deixem o local.

O filme tem clichês e momentos forçados, mas proporciona boas risadas com a mistura do linguajar francês e português, assim como foi para nós uma espiada na vida de alguns zeladores portugueses com os quais cruzamos na nossa estada parisiense.

Ai que fome!

Minha primeira recomendação é: não assista se estiver com fome. Ela só vai piorar, você vai correr para sua cozinha e pode acontecer de só encontrar uma torrada e requeijão, para seu desespero!! Fato verídico vivenciado por esta que vos escreve.

“Os sabores do palácio” é um delicioso (nos dois sentidos) filme francês, baseado na experiência de uma chef de cozinha a cargo da cozinha pessoal do Presidente da França por um par de anos. Única mulher em um ambiente masculino e hostil (os rapazes da cozinha central morrem de cúmes), Hortense (Catherine Frot) defendia uma culinária caseira, sem fru-frus inúteis, o que vai ao encontro do gosto do Presidente a quem servia.

sabores palacios

É interessantíssimo ver e imaginar a destreza que alguém precisa para elaborar um cardápio diferente a cada dia, com poucas horas de antecedência, para um número de pessoas que variava a cada dia. Um feito heróico ao olhos de quem não tem intimidade com a cozinha, como eu.

E que delícia ver a combinação de sabores, cores, tudo fresco, de produtores artesanais… Acho que passei 1/3 do filme salivando…!!!