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“As filhas sem nome”

Eu já tinha amado “Enterro celestial” e lido coisas curiosas em “O que os chineses não comem”. Então quando vi o livro novo de Xinran na Livraria Cultura, ele veio comigo para casa. E pulou na frente de muitos outros.

Depois de assistir a uma aula sobre a China, eu estava muito no clima de saber ainda mais desse país de proporções tão descomunais e história tão longa e complexa. “As filhas sem nome” (Ed. Companhia das Letras – “Miss Chopsticks”, em inglês, título bem mais representativo) não decepciona e retrata uma das muitas facetas do gigante asiático. Dessa vez o foco são as chinesas que deixam o campo para tentar a vida nas cidades grandes.

Com a recente flexibilização da política estatal que impedia o tráfego de pessoas pelo país, muitas chinesas, cansadas da dura vida rural e para fugir de casamentos arranjados, vão tentar melhor sorte na cidade.

Lá, encontram um mundo em quase tudo diferente do que lhes é familiar: relações mais abertas entre homens e mulheres, dinheiro, trabalhos os mais variados, roupas menos coloridas, encontro de dialetos de todos os cantos do país, desconhecimento dos festivais e lendas, estrangeiros… Tantas, mas tantas mudanças, que nem todas conseguem se adaptar. Por outro lado, para muitas é a chance de escapar do mesmo destino duro de seus pais na zona rural.

Xinran usa três irmãs como uma mistura de muitas histórias que foi conhecendo em suas andanças pela China. São moças invisíveis aos chineses acostumados com a nova China, mas que trazem uma rica bagagem de um outro lado do Estado, ainda agrário.

Foto por Júlia A, O.

Foto por Júlia A, O.

O que mais me impressionou é como pode num mesmo país, numa mesma época, conviverem realidades tão diferentes. Outro ponto que bateu forte em minha consciência é como a mulher ainda é o elo frágil na maior parte dos países e o quanto precisamos suportar de injustiças, violência e falta de liberdade. O que reforça minha crença de que nós mulheres devemos sempre tratar uma às outras com o máximo de delicadeza possível, para assim tornar menor o fardo de um mundo desigual.

(Divagações à parte, o livro é uma ótima olhadela nas contradições da China atual)

 

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“O homem que amava os cachorros”

De Natal, ganhei de um casal de amigos queridíssimos o livro “O homem que amava os cachorros” (Boitempo Editorial), de Leonardo Padura. Ao ler o título, estranhei a escolha do presente porque eu acho cachorros fofos, mas não sou fã do tipo que se empolgaria com uma história sobre amor aos animais. Virei o livro, li a sinpose e me acalmei: ufa, meus amigos me conhecem, o título engana.

Três história se entrelaçam, todas com o socialismo tanto como pano de fundo como personagem principal. Ivan, na Cuba atual, revela as restrições que a revolução trouxe aos cubanos. Seu caminho cruza com o de um personagem sem nome, que lhe conta sobre Ramon Mercader, espanhol aliciado por Stalin para matar Trotski. Por fim, os últimos anos de Trotski, um dos líderes da Revolução Russa e agora exilado por ordem de Stalin.

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

De rica base histórica, o autor cubano destrincha as condições reais dos diversos grupos que primeiramente se abergavam sob o manto comum da revolução comunista e que depois, com facões em punho, esqueceram a irmandade e partiram para a luta de poder. É igualmente interessante conhecer um pouco de uma figura tão emblemática como Leon Trotski – não imagino o que é viver todos os dias em prol de uma utopia, que está acima de qualquer relacionamento pessoal e das próprias dúvidas.

Elogios feitos, não posso deixar de compartilhar a dificuldade em terminar o livro. Longuíssimo (quase 600 páginas, o que em si não é problema), a história move-se a passos de tartaruga e a leitura não rende. Além disso, não conheço as particularidades dos grupos de revolucionários, principalmente da guerra espanhola, o que me fazia perder a real dimensão do jogo político que havia na época. A falta de empatia com os personagens também afetou o ritmo da leitura, já quem nem todos os dias vocês está animado a se encontrar com pessoas (imaginárias, eu sei!) de quem você não gosta particularmente.

Uma leitura para guerreiros.

“A assinatura de todas as coisas”

Que história! Que livro bem pesquisado! Que personagem principal cativante e original! Que jornada! Que linda prosa!

Sou tantos elogios à “A assinatura de todas as coisas”, de Elizabeth Gilbert (autora de “Comer, rezar, amar”) que pensei seriamente em não escrever este post. Sabendo que vou falhar em descrever o tanto que este livro é excepcional, o que escrever?

Em primeiro lugar, vou elogiar a edição em inglês, com lindas ilustrações na contracapa.

Foto e pés por Júlia A. O.

Foto e pés por Júlia A. O.

Em segundo lugar, vou explicar o enredo: Alma Whittaker nasceu na riqueza construída por seu pai, de origem humilde. Neste berço esplêndido, Alma desenvolve sua inigualável aptidão para estudar botânica. De mente sagaz e científica, sua pesquisa nos leva a assuntos como o afastamento entre ciência e religião no século XIX, história, botânica (obviamente), relações familiares, decisões que afetam todo o curso da vida de uma ou mais pessoas…. e tantas outras questões interessantes!

assinatura de todas as coisas 2Foto por Júlia A. O.

Não só Alma é ricamente construída; há seu pai, rude e inteligente; sua mãe, uma holandesa pragmática e igualmente inteligente; Prudence, a irmã adotiva que nunca revela suas emoções; Ambrose, que conduz Alma ao mundo do espiritual; Hanekke, a governanta indispensável.

Se eu pudesse excluir toda a quarta parte (o livro é dividido em 5 partes), eu diria que não há nada, mas nada mesmo menos do que cativante. Para mim, a quarta parte pode ser excluída sem prejuízo da narrativa e me manteria apaixonada pela jornada da Alma por todas as páginas.

Só um aviso: não procure “Comer, rezar, amar” na história ficcional de “A assinatura de todas as coisas”.

E um segundo aviso: que sua expectativa não seja tão alta a ponto de impossibilitar qualquer chance de amar o livro. Porque ele merece ser amado.

Plebiscito, política e publicidade

Se eu não tive uma boa experiência com o filme que assisti no final de semana, tive uma surpreendente satisfação com o filme chileno “No”.

A filmagem podrinha, como se tivesse sido feita nos anos 80, desanima no começo. É só questão de se acostumar e aproveitar a excelente história da campanha política pelo “não” no plebiscito ocorrido no Chile, em 1988.

Depois de 15 anos de ditadura, Pinochet cedeu às pressões internacionais e convocou uma votação nacional em que os cidadãos decidiriam se ele continuaria no poder ou não. O ditador e seus aliados não estavam muito preocupados com o resultado, mas os opositores resolveram preencher o espaço que lhes foi finalmente aberto.

Fonte 1

Fonte 1

No filme, acompanhamos a contratação do publicitário vivido por Gael García Bernal (que, viva!, largou as bobas comédias românticas americanas e voltou ao que sabe fazer bem). Os 17 partidos da oposição precisavam encontrar uma linguagem comum e que convencesse os indecisos a votar pelo “não” (“no”).

Valendo-se de truques de publicidade, a campanha do “não” começa a incomodar os poderosos, que não acreditavam na força dos jingles leves.

Um filme que envolve e também serve ao propósito de conhecermos a história de nossos vizinhos.

“E no final, a morte”

Em comemoração ao 121° aniversário de Agatha Christie (15/set), resolvi ler mais um livro dela.

O escolhido foi a único que não é passado no século XX. Ao contrário de seus outros livros, Agatha resolveu ambientar este mistério no Egito antigo. Junto com o clima de “quem é o assassino?”, a autora usa seus conhecimentos (seu segundo marido era arqueólogo) para traçar o dia-a-dia de uma família rica no Egito, demonstrando seus costumes e modo de viver.

O começo é um pouco devagar, tendendo a uma descrição histórica da época. Depois da primeira morte, a história engrena.

Renisenb fica viúva e volta a morar com seu pai, irmãos, cunhadas e sobrinhos. Ao mesmo tempo, seu pai retorna à casa com uma concubina, Nofret, que passa a criar intrigas no seio familiar. Quando Nofret aparece morta, a dinâmica familiar muda. Outras mortes se seguem, atiçando a crença de que estas são parte de uma vingança sobrenatural. No entanto, alguns dos membros da família acreditam que as mortes se deram por mãos humanas…

O final me surpreendeu!

Dica da amiga (Anna Márcia)

Livro: “Mandela – The Authorised Biography”, por Anthony Sampson

Estilo: biografia

Porque vale a pena ler: Meu gênero preferido são biografias. Gosto de viajar na trajetória de outras vidas, imagino se um dia publicarei minhas memórias.
Fato é que, ao me deparar com a Biografia de Nelson Mandela eu estremeci. Procurava algo que prendesse minha atenção, um bom livro em inglês, já que eu estava morando em Dublin na época. O livro é grandioso, mais de 700 páginas, um desafio pra mim.
Logo no primeira parte do livro me emocionei bastante ao conhecer a origem dessa grande figura da política mundial. Mandela é um estudioso. Inteligentíssimo e com um senso apurado de liderança, Mandela ousou aparecer no caminho do governo branco. Seu crime foi transgredir barreiras determinadas pelo regime do Apartheid, sua luta foi pela igualdade, pela inclusão-não só e negros, mas hindus, comunistas, etc- pelos direitos humanos.
Preso, fica quase 3 décadas em cárcere. Na prisão,  transforma o tempo em estudo. Disciplinado, mantem uma rotina matinal que incluía exercícios físicos e meditação.
Seus colegas e prisão o respeitam como a um rei. . Até os agentes penitenciários reconhecem que ele é diferente. Foi investigado pelo governo, era um homem perigoso e sua maior arma era sua própria consciência política.

Ele foi prisioneiro, sim, mas deixou a prisão já transformado em mito. Um líder, um santo, um presidente. Mandela é tudo isso no imaginário popular, que o recebe ovacionando.

Ter lido esse livro, estando Madiba ainda vivo foi como se eu pudesse ter orgulho do ser humano. Para mim, ele é um dos maiores líderes da história.