Oriente

“Os cem sentidos secretos”

Milênios separam o momento atual da minha última “leitura oriental”. Simplesmente não surgia o momento certo; ainda bem que “Os cem sentidos secretos”, de Amy Tan me pegou em uma fase sensível e delicada, ajustando-se perfeitamente ao que meus olhos e coração queriam.

É uma história muito bonita, com momentos de melancolia, tristeza, esperança e doçura. Trata de relações familiares, bem ao estilo Amy Tan; de amores (dos mais variados tipos); das diferenças de pensamento e de modo de viver norte-americano x chinês; de lendas; de destino; do que os cinco sentidos “comuns” não conseguem sentir…

Assim como ler Gabriel García Márquez, você tem que se render ao aspecto fantasioso e nele mergulhar, para assim curtir toda a experiência de um livro da escritora americana, descendente de chineses.

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(foto por Júlia A. O.)

“Os cem sentidos secretos” gira em torno de duas meia-irmãs: Olivia, nascida nos Estados Unidos e que sofre com a falta de amor por parte da mãe; Kwan, nascida na China e que já adolescente deixa o país natal para viver com a família de sua meia-irmã.

Kwan envergonha Olivia, com sua ingenuidade e desconhecimento da língua inglesa. Kwan parece não notar a aversão da irmã, por quem nutre grande carinho, que supera todas as maldades sofrida, e para quem confidencia seu poder de falar com fantasmas.

No final, o livro se resume na busca de ambas pelo amor: Olivia para preencher o vazio por sentir que nem sua mãe, nem seu marido a amam com todo o coração; Kwan, para provar sua lealdade amorosa, vinda de vidas passadas.

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Cerejeira, pasta de feijão e segundas chances

De repente um filme te toca tanto, que aquele gosto agridoce que ele deixou em sua boca permita que você acredite na existência de pequenos grandes gestos.

O filme japonês “Sabor da vida” desenvolve-se essencialmente em torno da “biboca” que vende doces dorayaki. E tal como o produto vendido, o filme é doce. De uma doçura que desarma, que questiona, que  envolve.

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Sentaro trabalha dia após dia preparando e vendendo seus doces com recheio de feijão. Anuncia a vaga de ajudante, para a qual se candidata Tokue, uma senhora de 75 anos. Ele gentilmente a dispensa. Ela insiste. Apresenta sua pasta de feijão. E é tão gostosa, que Sentaro dá uma chance a Tokue.

A alegria de Tokue a ser aceita para o cargo é tão visceral que me deu vontade de chorar. E quando, mais para frente, você descobre o por quê de tanta felicidade, dá ainda mais vontade de chorar. Chorar pelas chances perdidas, pela solidão, pela injustiça, pela ignorância que destrói vidas.

Mesmo tratando de temas pesados, a história é conduzida de forma tão leve, tão delicada…

Há cenas de contemplação, de natureza, aos quais nossos olhos acostumados com a rapidez norte-americana às vezes estranham. Uma vez que estou em um momento em que tenho pensado muito no benefício de se ter atenção ao momento presente, foi um lindo exercício. Como a paciência e o “estar presente”, que a cultura japonesa tem costurados em sua origem, são elementos que eu gostaria de trazer para minha vida!

Não quero contar muito mais do filme, para não estragar suas revelações que tornam a história cada vez mais envolvente.

Quero recomendar “O sabor da vida” para todo mundo. Para se assistir de coração aberto e dócil paciência.

“A noiva fantasma”

Uma das sensações mais deliciosas é quando eu começo a ler um livro e já nas primeiras linhas eu SEI que vou amar a história.

Foi assim com “A noiva fantasma”, de Yangsze Choo.

Quando vi a capa linda e as primeiras páginas estampadas, eu quis ter o livro por questões estéticas. O lado racional meu freou e pediu o mínimo: confirme se a história te interessa, Júlia! Sim, sim. Mistura de elementos da cultura oriental com fantasia faz meu gênero. Posso ir para o caixa, lado racional? Pode.

Li Lan é uma jovem malaia, no ano 1893. A moça é surpreendida quando seu pai – pessoa que ela adora, mas que os levou à falência – a surpreende com a indagação: “o que você acharia de ser uma noiva fantasma?'” (parênteses: não é de arrepiar os pelos a ideia de “noiva fantasma”? Eu fiquei alucinada com isso, procurando na internet..!)

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

Noiva fantasma era (ou é?) uma prática chinesa antiga, em que uma moça viva se casava com um rapaz…morto. Isso acontecia em geral para aplacar o espírito daquele que morreu sem ter se casado. Ou a família do rapaz podia querer uma companhia jovem para substituir o filho perdido, já que a mulher vai viver na casa dos pais do marido.

Não quero contar muito mais para não estragar a história, cujo desenvolvimento é bem diferente do que eu já li. Só quero dizer que a mistura de sobrenatural, com amor, vingança, suspense e amadurecimento resulta em páginas a serem saboreadas com calma e um tiquinho de medo.

“As montanhas de Buda”

Quem me conhece sabe o tanto que me intriga o Oriente. Por sorte aliada ao planejamento, já tive a maravilhosa experiência de conhecer China, Butão, Nepal e Índia. Nada se compara a viajar e experimentar tantos lugares bonitos e diferentes formas de viver. Espero ainda conhecer mais muitos e muitos e muitos lugares durante minha passagem na Terra.

O budismo é uma das características que tornam o Oriente alvo de interesse meu. A parte da prática religiosa é difícil de ser entendida por mim, que nasci e cresci católica. Já a parte mais “filosófica”, digamos, é de uma simplicidade e beleza universal. O dalai-lama Tenzin Gyatsu, a maior representação atual do budismo tibetano, toca num ponto importante ao dizer que a religião é uma expressão da cultura na qual você está inserido e, assim, ele não prega a mudança de credos; o que importa é a bondade e a compaixão com que a pessoa age no dia-a-dia.

Quando visitei o Butão, pequenino país localizado no sul da Ásia, os ensinamentos do budismo são de tal forma enraigados na cultura, que parece que um véu de paz recai sobre todos os que lá estão. Eles sorriem sempre e fazem os gestos com calma. Mesmo aqueles que vivem em situação de poucos recursos materiais, não parecem infelizes, desamparados, desiludidos.

A natureza é incrível, com montanhas verdes e caudalosos rios. As construções tradicionais e os mosteiros completam o cenário idílico – em especial o Tiger´s Nest (mosteiro de Taktsang), encravado  a mais de 3.000 de altitude, cuja lembrança me tira o fôlego até hoje.

Não conhecemos o Tibete, em virtude da dificuldade em um visitante ingressar no país, mas ele possui muito em comum com o Butão na questão da geografia e religião. Infelizmente, o Tibete não compartilha com o vizinho o mesmo destino pacífico. Nos anos 50, o Tibete foi invadido pela China, que lá cometeu atrocidades em nome da implantação do comunismo e para dar vazão a sua ânsia expansionista.

A pequena população, sem exército em virtude da prática da não-violência, não foi páreo para a máquina chinesa. Ainda assim, até hoje, há resistência à política de extermínio da cultura tibetana, em especial pelos kampas (nômades), monges e monjas. É uma história triste, que somente recentemente foi conhecida do público mas que, dada a força da China, não tem encontrado adesão suficiente de outros países dispostos a “comprar essa briga”.

(Um parênteses: eu AMEI visitar a China e continua querendo conhecer mais de sua cultura. É um povo com rica história e ensinamentos, apesar de ter esse lado negro que é inegável)

Em “As montanhas de Buda”, Javier Moro intercala pinceladas da vida do atual dalai-lama com a história verídica de duas monjas, Kimson e Yandol. Elas foram  presas por desrespeitar as restrições chinesas e que, uma vez fora da prisão e longe das torturas, aventuraram-se pelas montanhas do Himalaia para buscar refúgio no Nepal e posteriormente na Índia, próximas de onde se exilou o dalai-lama.

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

A história, portanto, é interessantíssima. No entanto, o autor não soube transformar a pedra bruta em diamante.

O leitor mal conhece as monjas quando se iniciam as torturas – mesmo que qualquer um se sinta enojado com a prática, se as personagens tivessem sido mais bem apresentadas, o impacto seria maior. O mesmo acontece com a perigosa travessia: você sabe que é uma tarefa quase impossível, só que a narrativa não é hábil em te colocar dentro da ação.

Os trechos em que se conta a vida do dalai-lama parecem querer trazer informações demais para pouco espaço. Não consegui aprender tudo o que estava sendo transmitido. Eu ansiava por me apegar mais as monjas, ao dalai-lama e a suas histórias (sentimento totalmente contrário ao budismo, que prega o desapego, eu sei) e não era recompensada.

Como o livro é curto, recomendo fortemente como fonte de conhecimento do que aconteceu/acontece com o Tibete. No restante, o livro deixa a desejar.

 

“As filhas sem nome”

Eu já tinha amado “Enterro celestial” e lido coisas curiosas em “O que os chineses não comem”. Então quando vi o livro novo de Xinran na Livraria Cultura, ele veio comigo para casa. E pulou na frente de muitos outros.

Depois de assistir a uma aula sobre a China, eu estava muito no clima de saber ainda mais desse país de proporções tão descomunais e história tão longa e complexa. “As filhas sem nome” (Ed. Companhia das Letras – “Miss Chopsticks”, em inglês, título bem mais representativo) não decepciona e retrata uma das muitas facetas do gigante asiático. Dessa vez o foco são as chinesas que deixam o campo para tentar a vida nas cidades grandes.

Com a recente flexibilização da política estatal que impedia o tráfego de pessoas pelo país, muitas chinesas, cansadas da dura vida rural e para fugir de casamentos arranjados, vão tentar melhor sorte na cidade.

Lá, encontram um mundo em quase tudo diferente do que lhes é familiar: relações mais abertas entre homens e mulheres, dinheiro, trabalhos os mais variados, roupas menos coloridas, encontro de dialetos de todos os cantos do país, desconhecimento dos festivais e lendas, estrangeiros… Tantas, mas tantas mudanças, que nem todas conseguem se adaptar. Por outro lado, para muitas é a chance de escapar do mesmo destino duro de seus pais na zona rural.

Xinran usa três irmãs como uma mistura de muitas histórias que foi conhecendo em suas andanças pela China. São moças invisíveis aos chineses acostumados com a nova China, mas que trazem uma rica bagagem de um outro lado do Estado, ainda agrário.

Foto por Júlia A, O.

Foto por Júlia A, O.

O que mais me impressionou é como pode num mesmo país, numa mesma época, conviverem realidades tão diferentes. Outro ponto que bateu forte em minha consciência é como a mulher ainda é o elo frágil na maior parte dos países e o quanto precisamos suportar de injustiças, violência e falta de liberdade. O que reforça minha crença de que nós mulheres devemos sempre tratar uma às outras com o máximo de delicadeza possível, para assim tornar menor o fardo de um mundo desigual.

(Divagações à parte, o livro é uma ótima olhadela nas contradições da China atual)

 

“As redes da ilusão”

Mianmar. É só alguém comentar que viajou para lá ou conhece alguém que foi à antiga Birmânia, que eu congelo. Sou louca pelos países orientais, tanto que já me aventurei pela China, Butão, Nepal e Índia. E quero conhecer muito mais. Só mno tenho coragem de conhecer aquele mencionado país localizado no sudeste asiático.

A culpada pelo meu medo é Amy Tan.

Tirado do site do Ponto Frio

Tirado do site do Ponto Frio

Em “As redes de ilusão” (Ed. Rocco), a escritora sino-americana conta a história de uma expedição pelo Mianmar por dois enfoques: um da guia Bibi Chen e outro do grupo de norte-americanos. A especialista em antiguidades Bibi morre antes de começar a viagem e como um fantasma que não se desprendeu da Terra, vai recordando sua vida. Já o grupo de turistas decide fazer a viagem mesmo assim, contratando guias locais para “seguir os passos de Buda”.

O passeio começa na China e o leitor vai conhecendo o eclético grupo. Tudo vai relativamente bem até osamericanos desaparecerem nas florestas de Mianmar. Não vou contar como isso acontece, para manter o suspense sobre uma das partes mais tensas do livro. O que eu posso dizer é, ainda que seja uma história ficcional, eu tenho medo mesmo após anos de ter lido a última frase… E o livro não é de terror.

A história segue interessante até o meio, então torna-se maçante, voltando a um bom ritmo perto do final.

Se alguém foi ao Mianmar, me conte nos comentários!

“O olho de jade”

O livro tinha tudo para me fazer gostar dele. “O olho de jade”. Imagine, um romance policial ambientado na China?! A lindeza da capa do livro me enganou, porque o conteúdo deixou muito a desejar.

Fonte 1

Fonte 1

Diane Wei Liang revela a detetive Mei Wang, que transita bem no intrincado mundo da Pequim moderna. A sua audácia é tanta que até possui um secretário. Quando um amigo de seus pais a contrata para encontrar um antigo artefato de jade, Mei depara-se com o difícil e sangrento passado da Revolução Cultural.

Uma pena que tantos temas interessantes tenham sido explorados de modo pouco envolvente. Eu me forcei a gostar do livro, só que ele não me convenceu…