reflexão

A primeira infância

Um lenço de papel, uma toalha ou um balde, a depender do seu nível de “chorabilidade”.

No meu atual modelo para lá de sensível, nem o balde daria conta da corrente de lágrimas que inundou minha sala nos primeiros minutos do documentário brasileiro “O começo da vida”. Ao ponto do meu marido, que lida bem com meu chororô, ter perguntado se eu gostaria de assistir a outra coisa…!

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A linguagem do documentário é propositadamente emocional, para atingir a todo o tipo de público, não só aquele mais acostumado a argumentos mais complexos. O propósito é despertar em todos – cidadãos, empresas, políticos – a noção da imprescindibilidade do cuidado com a primeira infância como forma de construir a história humana com menos violência e mais “sucesso”.

O documentário é muito bem montado, com participação de famílias de diferentes países e configurações a estudiosos do tema (até prêmio Nobel). E destaca como o amor e o cuidado diário são as bases de formação de qualquer ser humano.

O discurso vai ao encontro do que eu acredito, ainda que nem todo dia eu consiga fazer as escolhas mais acertadas em relação a minha filha.  O importante é que carinho nunca é demais (assim como penso que colocar limites e dizer não é dar carinho).

Não sei qual seria minha percepção se eu não fosse mãe. Acredito que me emocionaria do mesmo jeito (com uma menor quantidade de lágrimas). Torço para que a mensagem do documentário de cuidar do “começo da vida” para que nossa história seja feliz atinja positivamente milhões de pessoas.

“Isso também vai passar”

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(foto por Júlia A. O.)

“Você não vai gostar da personagem principal, nem da história, mas este livro é muito bom”.

Curiosa a recomendação que minha mãe me deu ao emprestar o livro “Isso também vai passar”, da espanhola Milena Busquets.

E é a descrição mais acertada possível.

Eu não gostei muito da personagem principal, que, aos quarenta anos, perde sua mãe. Seu jeito de lidar com o luto é com muito sexo. Blanca é irresponsável, ama os filhos porém não cuida muito bem deles, não trabalha, age como se adolescente ainda fosse.

Tampouco me apaixonei pela história desse período da vida dela em que ela passa férias em Cadaqués, para tentar aprender a viver sem sua mãe, pessoa central em sua existência, para o bem e para o mal.

Ainda assim: que livro bom!

Se as atitudes de Blanca me irritam em geral, suas reflexões sobre a perda da genitora são tão tocantes… Falam tão alto a alguém como eu, para quem o assunto “maternidade” tem sido tão pensado, repensado e vivido…

O trecho que transcrevi uns dias atrás foi de especial impacto: eu percebi o quanto me reconheço no olhar da minha mãe, acreditando ser algo que estará sempre lá. Assim como eu tenho um olhar único para minha filha, que espero ser para ela tão reconfortante quanto o que eu recebo.

Um livro que comove.

Cerejeira, pasta de feijão e segundas chances

De repente um filme te toca tanto, que aquele gosto agridoce que ele deixou em sua boca permita que você acredite na existência de pequenos grandes gestos.

O filme japonês “Sabor da vida” desenvolve-se essencialmente em torno da “biboca” que vende doces dorayaki. E tal como o produto vendido, o filme é doce. De uma doçura que desarma, que questiona, que  envolve.

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Sentaro trabalha dia após dia preparando e vendendo seus doces com recheio de feijão. Anuncia a vaga de ajudante, para a qual se candidata Tokue, uma senhora de 75 anos. Ele gentilmente a dispensa. Ela insiste. Apresenta sua pasta de feijão. E é tão gostosa, que Sentaro dá uma chance a Tokue.

A alegria de Tokue a ser aceita para o cargo é tão visceral que me deu vontade de chorar. E quando, mais para frente, você descobre o por quê de tanta felicidade, dá ainda mais vontade de chorar. Chorar pelas chances perdidas, pela solidão, pela injustiça, pela ignorância que destrói vidas.

Mesmo tratando de temas pesados, a história é conduzida de forma tão leve, tão delicada…

Há cenas de contemplação, de natureza, aos quais nossos olhos acostumados com a rapidez norte-americana às vezes estranham. Uma vez que estou em um momento em que tenho pensado muito no benefício de se ter atenção ao momento presente, foi um lindo exercício. Como a paciência e o “estar presente”, que a cultura japonesa tem costurados em sua origem, são elementos que eu gostaria de trazer para minha vida!

Não quero contar muito mais do filme, para não estragar suas revelações que tornam a história cada vez mais envolvente.

Quero recomendar “O sabor da vida” para todo mundo. Para se assistir de coração aberto e dócil paciência.

Começar 2016 no desapego

Na “nóia” (só essa palavra descreve meu estado) de me desapegar que se seguiu à “A mágica da arrumação” (depois faço um post contando a experiência reveladora que se seguiu a este livro), comecei a refletir que precisava me desapegar não só de objetos. Na lista deveriam estar inclusas pessoas, hábitos, atividades… É meu projeto para 2016, me desapegar do que/de quem não funciona mais ou que, ainda que seja legal, não cabe mais no tempo que tenho disponível.

Bem nessa pegada é o texto da Elizabeth Gilbert, cuja tradução li no blog Microclima.

Vale a pena ler mil vezes e refletir mil e uma.

 

EU AMO VOCÊ, MAS ESTOU ME DESPEDINDO

Quantas vezes, na sua vida, você precisou dizer essa frase?

Você precisa dizê-la mais uma vez?

Não estou falando de despedir-se de um relacionamento, mas de despedir-se de coisas que você ama, mas que estão lhe impedindo de seguir o caminho que você precisa seguir.

Você pode amar cigarros, por exemplo, e saber que eles não estão lhe ajudando em nada.

Você pode amar a sua cidade natal e, ao mesmo tempo, saber que precisa ir embora.

Você pode amar a sua casa e saber que ela é muito grande para você.

Você pode amar as pessoas com as quais trabalhou durante dez anos, mas talvez seja a hora de se despedir delas e começar a procurar um novo emprego.

Você pode amar sair para tomar uns drinques com os amigos no final do dia, mas você sabe que isso lhe deixará muito cansado para se dedicar às suas paixões pelo resto da semana.

Na turnê de Big Magic, no final das apresentações, perguntei ao público sobre as coisas para as quais eles precisam começar a dizer “não” para, assim, obter mais tempo e energia para as coisas que realmente querem fazer.

Percebi que o principal motivo pelo qual as pessoas não estão exercitando a própria criatividade é que elas não têm tempo ou energia para isso – especialmente depois de gastarem toda a sua energia com os outros.

Há algum tempo, enquanto eu estava lutando para me tornar escritora, uma senhora muito sábia me perguntou, certa vez: “De que você está disposta a desistir para ter a vida que você diz que quer ter?”.

Respondi que ela tinha razão. “Eu realmente preciso começar a aprender a dizer não para as coisas que não quero fazer.”

Ela me corrigiu: “Não. É um pouco mais complicado que isso. Você precisa aprender a dizer não para as coisas que você QUER fazer, sabendo que a sua vida é uma só, e você não tem tempo e energia suficientes para dar conta de tudo”.

Foi então que parei de assistir TV. (Não se preocupem, já voltei a assistir TV!) Durante alguns anos, nos meus vinte e poucos, quando estava tentando desesperadamente descobrir como escrever melhor e me tornar uma autora publicada, tive de dizer à TV: “Eu amo você, mas estou me despedindo”.

Porque eu sabia o que queria fazer (escrever) e sabia como queria fazê-lo (alegre e energicamente)… então comecei a me despedir de muitas coisas.

Você ficaria chocado se eu lhe contasse algumas das coisas às quais tive de dizer não. Oportunidades maravilhosas. Aventuras deslumbrantes. Experiências divertidas. Chances de conhecer pessoas incríveis. E alguns convites para uns drinques com amigos durante a semana (e nos finais de semana também).

Eu adoraria ter podido fazer todas essas coisas, mas sou uma só. Sabia o que queria fazer de verdade na minha vida, e sei o que é preciso para manter o foco e a dedicação.

Repitam comigo: “Eu amo você, mas estou me despedindo”.

Não sei de que você precisa se despedir para começar a viver a vida que diz que quer viver.

Mas creio que, talvez, você saiba.

Já está na hora?

LG

“O pintassilgo”

Quanto tempo se passou desde que li “A história secreta”, de Donna Tartt? Não me lembro… Tanto, mas tanto tempo que não me lembro da história. O que restou é a sensação de que foi uma leitura sensacional, amedrontadora, única.

E então nunca mais ouvi falar da autora.

Até o sucesso de vendas e prêmio Pulitzer de “O pintassilgo”.

Uma amiga que – após anos de convivência – me conhece bem, presenteou-me com esse livro no meu aniversário deste ano. É um livrão de mais de 700 páginas, o que requer que você esteja no estado mental correto ao iniciar a leitura.

Então você é tragado pelas cenas criadas por Donna Tartt, que não se reproduzem somente em imagens na mente do leitor, mas também no som, no cheiro, na textura.

O livro é incrível assim!

Theo Decker tem treze anos quando sofre um atentado terrorista em Nova York, no qual perde sua amada mãe. Ele fica à deriva, primeiro com a família de um amigo, depois com o pai e sua nova namorada em Las Vegas. Esse período com seu pai tem forja, mais do que a perda da mãe, o que ele se transforma: álcool, drogas, pequenos crimes, desperdício de sua inteligência, más companhias, falta de amor próprio…

Como mãe, me afligiu demais pensar em minha filha sem um suporte emocional, financeiro e moral. Por sorte, na eventualidade de eu não poder estar presente enquanto ela crescer, há várias pessoas que a guiariam pela vida.

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Há um elemento importantíssimo na história que não quero contar porque é das grandes graças d´”O pintassilgo”. E isso tem a ver com a Arte. Com o fato de que uma criação humana pode nos tocar de tal forma que gera emoções que procuramos repetir.

Por que a gente se maravilha com quadros, esculturas, construções arquitetônicas e demais manifestações da Arte? Por que a gente se apega a um objeto que não tem valor sentimental e sim pelo fato de que ele te fala ao coração?

Há tantas análises possíveis pelos temas tocados, tantos sentimentos ativados pela leitura… Esse livro é daqueles que atravessará séculos sem perder sua grandiosidade.

Diretoria da vida pessoal

Em um artigo na Verily Magazine, Monica Gabriel coloca em palavras algo que eu já sinto há alguns anos: não é necessário ter uma melhor amiga e sim um grupo de amigas queridas (ou amigos!) que formam uma espécie de “diretoria” na sua vida pessoal.

Na adolescência é comum aquela amizade exagerada, de adoração extrema, por uma única amiga que é “A” melhor do mundo. “TE AMO NO BOM SENTIDO”, eu e minha melhor amiga da vez bradávamos em nossas cartinhas.

Quando me tornei adulta, percebi que eu não tinha UMA melhor amiga. Considerando o coletivo de minhas amigas, havia um grupo daquelas cuja opinião e companhia são mais próximas ao meu coração de que outras. Como me livrei da noção juvenil de que precisaria me limitar a uma só “melhor” amiga para que a amizade fosse maravilhosa, posso desfrutar da alegria de ter várias pessoas incríveis na minha vida.

No artigo que eu citei acima, são elencadas sete tipo de amigas. O engraçado é que eu reconheci amigas em todos os tipos e percebi que as minhas melhores amigas e amigos tendem a cair em certos tipos mais do que em outros.

Vamos às categorias que a colunista indicou como essenciais:

“A que fala o que pensa na lata” (“your blunt friend”) – tenho umas três amigas que são daquelas que falam a verdade mesmo que doa. Esse tipo de amiga é a última a saber das novidades da minha vida, porque nem sempre eu quero ouvir a verdade nua e crua. Prefiro que a verdade me seja colocada docemente… E por que elas continuam minhas amigas? Porque sei que estão do seu lado e quando elogiam, não tenho dúvidas de que é de verdade!

 

“A amiga espiritualizada” (“your spiritual friend”) – Puxa, sabe que fiquei em dúvida se converso com alguma amiga sobre questões de crise de fé? Acho que minha amiga para essas questões sou eu mesma!

 

“A audaciosa” (“your daredevil friend”) – tenho uma amiga de infância que não tem medo de arriscar e mudar de rumo sempre que sentir que “não está bom do jeito que está”. Na nossa adolescência é quem me levou para a primeira balada noturna.

 

“A nerd” (“your nerdy friend”) – esse grupinho está bem recheado na minha vida, já que eu mesma sou uma delas. Há aquela viciada em tecnologia, as que amam livros como eu, as que gostam de falar do trabalho, meu amigo crânio, e por aí vai. Adoro o entusiasmo com que repartem quaisquer que sejam suas paixões comigo!

 

“A comediante” (“your comedian friend”) – meu irmão está definitivamente na lista dos piadistas. E também uma amiga (ex-colega de trabalho), que tem o jeito mais engraçado do mundo de contar histórias.

 

“A amiga com quem você sempre pode contar” (“your there-for-you friend”) – fui abençoada com algumas dessas pessoas na minha vida. E espero que tais pessoas saibam que também podem contar comigo. O destaque desse grupo vai para meu marido e meus pais.

 

“A sábia” (“your Yoda friend”) – tenho uma amiga de quem gosto de ouvir as opiniões e experiências sobre maternidade. Outra para as relações amorosas. E aquela que tem sabedoria em saber me tratar com docuça, pois é assim que eu me sinto em casa.

 

Sabe o que foi curioso ao analisar essa lista? Perceber que eu não sou o mesmo tipo de amiga para todos meus amigos. Eu também caio em uma ou outra classificação a depender de com quem eu me relaciono. Afinal das contas, a gente não é unidimensional, não é mesmo?

Direito/direito

Alerta: pode parecer que este texto é sobre Direito. Não é. É sobre fazer o que é direito.

O Código de Processo Civil brasileiro será substituído por um novo, no ano que vem. O novo código tem como um de seus princípios básicos impedir decisões-surpresas. Ele quer que haja diálogo antes das decisões. Parte-se da premissa de que o juiz exerce um nobre ofício, o que não significa que esteja acima das partes. Sua missão é solucionar o conflito, mas com a possibilidade de que cada parte se manifeste previamente à tomada de decisão.

Refletindo sobre o assunto, percebi que este princípio não vale somente para o processo judicial. Vale para vida.

Se existe uma regra  – seja ela explícita (escrita ou falada) ou implícita (atitude que se espera comumente em determinada relação) – e uma das partes envolvidas decide não obedecê-la ou mudá-la, o diálogo antes da decisão é essencial. É medida de respeito dar a chance ao outro afetado para que diga suas razões e saiba, antecipadamente, da possibilidade de que o esperado não se concretize.

É fazer o que é direito.

Não estou aqui nem discutindo a validade de não se seguir uma regra ou querer mudá-la no meio do jogo. Isso vale outra longa reflexão.

O que eu defendo aqui é a transparência prévia – que se evite decisões-surpresas na vida das pessoas com quem você convive.

Outro paralelo com a atividade jurisdicional e a vida é como um bom julgador analisa o conflito a ele submetido.

Cada parte, por óbvio, vai defender que está certa em sua atitude. O bom advogado sabe usar as palavras a seu favor. Recheia sua argumentação de dados periféricos que parecem distorcer a fala do outro. Coloca em dúvida a certeza com o qual a outra parte afirma seu direito. Tenta mudar o foco da discussão para coisas menores e assim desviar a atenção dos fatos que realmente importam.

O bom julgador consegue ver além da retórica. Consegue destacar da discussão os poucos fatos que são verdadeiramente relevantes. Não se deixa levar por argumentos que só lateralmente tocam na questão. Por questões que não são as cruciais. O bom julgador analisa os fatos que, sem a influência desses “frufrus” tendenciosos, leva a dar razão a um ou outro.

Na vida também é assim. Quantas vezes somos levados a pender para um lado por minúcias que despertam a simpatia, mas que no frigir dos ovos não são exatamente o que se está discutindo? É um trabalho difícil, esse de reduzir a análise do conflito ao que importa, àquelas atitudes que foram determinantes para o resultado e que são centrais para ter surgido a disputa em primeiro lugar. Que difícil é não se desviar da análise correta quando se depara com um bom jogo de palavras!

Não importa se é difícil fazer o que é direito quando isso nos trará um prejuízo, quando será prejudicial a nossas vontades ou desejos. Fazer o que é direito equivale a uma consciência tranquila, mesmo que doa o bolso, os projetos e os interesses pessoais.

E se, por acaso, pelo simples fato de ser humano, você surpreender outra pessoa com o desvio de uma regra (quem não erra?), dê um freio no instinto de ficar na defensiva. Assuma seu comportamento. E mesmo que você não esteja disposto a compensar o erro por inteiro, a honestidade ajuda a aliviar um pouquinho o gosto amargo na boca.