“Um lugar perigoso”

Luiz Alfredo Garcia Roza envelhece e não perde a mão.

A décima aventura do delegado carioca Espinosa é tão boa quanto as anteriores. O que mais adoro nas histórias é que sempre fica um quê de dúvida no leitor, nunca se sabe exatamente se alguns dos eventos ocorreram na realidade ou somente na mente da pessoa.

Em “Um lugar perigoso”, Espinosa tem menos destaque do que nos livros anteriores, o que é uma pena porque adoro o personagem. Desta vez, ganha relevo o professor Vicente. Ele sofre de uma síndrome que o faz perder a memória. Para continuar “funcionando”, o doente preenche essas lacunas com criações que acabam se tornando reais, já que ele não sabe distinguir memórias reais daquelas inventadas.

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

Ao fazer sua arrumação anual, Vicente descobre uma lista com o nome de dez mulheres. Nomes que ele não reconhece. Ele começa a ter sonhos vívidos de um corpo de mulher desmembrado. Teria ele assassinado essas dez mulheres? Por que a lista, sem título que indique que mulheres são essas?

Ele procura o delegado, para que investigue o crime que seque sabe se ocorreu. Sem corpo e sem nenhuma outra evidência, o delegado não tem o que investigar. Há de se esperar o professor relembrar mais algum pedaço da história, se é que esse crime é real ou imaginário…

Exceleeeeeente suspense!

Centavos de terror

Sempre antenada aos últimos lançamentos de seriados que recaiam dentro de seu leque de gosto pessoal, a Michele, do blog Resumo da Ópera, havia falado muito bem sobre “Penny dreadful”.

Lá fui em conferir.

E não me decepcionei!

 penny dreadful personagens

O seriado é de terror para os mais fracos (leia-se: eu, que fiquei com medo, confesso) ou de suspense, para aqueles de coração mais resistente. Na Londres dos 1.800s, o cidadão comum não imagina que um outro mundo esteja logo ali, nas sombras. Já alguns cidadãos não comuns conhecem esse lado negro e nele se embrenham por diferentes motivos (pessoal, financeiro, em busca de aventura).

Sir Malcolm é o senhor (ainda galã, as meus olhos) que procura a filha desaparecida, refém de uma dessas criaturas terríveis. Vanessa Ives é a sensual médium, que ajuda Sir Malcolm nessa empreitada e que o auxilia na formação de um grupo de pessoas corajosas, como o americano desgarrado Ethan Chandler, o mordomo misterioso, o médico Victor Frankeinstein, entre outros.

A produção é para lá de espetacular! O colorido macabro somado à riqueza de detalhes dos ambientes e roupas te transportam para a tela e te fazem sentir como parte da cena.

Só assisti três episódios e por enquanto a personagem de Eva Green – a sensitiva Miss Ives – é disparada minha favorita. A atriz é sexy por natureza, de um jeito felino, com um quê de perigoso. Sua atuação é de botar medo, o que no caso dessa série é um trunfo. É inegável que ela guarda segredos de carga explosiva, que talvez a tornem um pouco má – só que eu não os conheço e não pude deixar de torcer para que ela saia sã e salva dessas explorações pelo mundo sobrenatural.

PS: Por que a série se chama “Penny Dreadful”, se não há nenhuma personagem de nome Penny? Investigando, adorei a história do nome – publicações populares com histórias de terror eram chamadas de “penny dreadful”, o que se poderia traduzir por centavos de terror.

“Submissão”

Olha quem está de volta de longas férias? Eu!

Este ano, o prazer que ler me dá andava em baixa. Comecei super bem com “O tempo entre as costuras” e depois não encontrei mais NADA que me agradasse de verdade. Minha sorte começou a mudar. Finalmente.

Não costumo ler algo que acabei de comprar (esquisita, não?). Em geral, compro, coloco na estante (na verdade. Em qualquer lugar que caiba na minha casa) e leio quando surgir a vontade. Este eu li direto da sacola de compras, porque eu precisava desesperadamente dar uma mudada nas minhas escolhas de leitura. Precisava dar um jeito de voltar a ter aquela coceira de querer ler todo o tempo livre que me sobrar. E se este livro não me deu essa coceira, ele fez meu cérebro voltar a funcionar e as palavras a ressoarem após eu me desligar da página impressa.

Tenho muito a agradecer a “Submissão”, de Michel Houellebecq.

submissao

Em 2022, as eleições presidenciais na França tem como ganhador um candidato muçulmano, Mohamed Ben Abbes. Os conflitos não noticiados logo antes das eleições e as mudanças impostas pelo partido islâmico são vistos pelos olhos de François, professor de literatura da Sorbonne.

François é o típico narrador com o qual antipatizo. Não tem conceitos morais fortes, é apático, é tarado, é desinteressado e desinteressante. E como eu gostei de um livro com um personagem central tão repugnante?

É que a ideia ficional é muito curiosa. E a possibilidade de acontecer a torna ainda mais interessante. E talvez um pouco aterrorizante para quem não deseja ser obrigado a seguir os preceitos de uma religião que não a sua.

Também te faz pensar em o que é melhor para a sociedade como um todo, em como entendemos o que é bom ou ruim com base em nossa cultura, que existe mais de uma forma possível de vida, que é difícil julgar se você não foi criado em determinada crença, que a imposição da minha religião talvez seja igualmente ofensiva para quem não crê nela, que talvez o mundo ocidental passe a ter uma nova ordem, que eu não gostaria de ser excluída do mercado de trabalho/estudo/monogamia e tantas e tantas questões.

Não foi um livro pelo qual me apaixonei – para isso eu PRECISO de um personagem apaixonante. Foi um livro que me fez refletir, que me tirou da onda de livros bobos, que me fez voltar a ter gosto pelo o que a leitura proporciona: o estímulo das células neurais!

Correndo no spa? Correndo do spa

Tendo 8 dias a mais de férias que meu marido, não quis gastá-los todos em São Paulo. Como não faz sentido eu viajar para um lugar bacana sem meu preferido companheiro de viagem, imaginei que 3 dias de relaxamento num spa seria uma excelente ideia.

Só que foi uma ideia de girico.

O problema todo consistiu na não correspondência entre o que um spa oferece e o que eu pretendia. Eu pretendia ficar tranquila. E isso significa, para mim, acordar tarde, ler um monte, ver um filme, comer algo gostoso. Um spa (pelo menos o que eu escolhi) oferece acordar cedo, um monte de aula de ginástica e pouca comida.

Ou seja, ao invés de ficar no dolce far niente eu estava passando fome. E sozinha. Imagina o mau humor. E o desalento.

Até que meu marido me “permitiu” desistir, dizendo que se não estava bom, por que eu não considerava voltar antes para casa? Passei o dia jogando com a ideia para lá e para cá na minha cabeça. E quando pensei “por que não?”, um alívio me invadiu e tive a certeza de que era a decisão acertada!

Quando cheguei em casa, vi minha filha dormindo, dei um beijo no meu marido, comi um chocolate e sentei na minha cama para ler uma revista percebi que, sim, era ali que eu queria estar. E que da próxima vez eu não vou decidir nada às pressas, porque para ficar longe da minha família, o programa tem que valer a pena!

De todo jeito, esse post não é para chorar as pitangas de uma escolha errada e sim para contar de forma bem-humorada os acontecimentos nesses 2 dias e meio de spa:

– Não quero nunca mais ver chia na minha frente. Imagina ter quase todos os pratos salpicados com a semente. É melancia com chia. É salada com chia. É frango com chia. Tira essa maldita no meu prato!

– Na sexta eu estava sozinha no spa. No sábado, as companheiras eram uma senhora bem gorda e uma mulher sarada. A mulher sarada era a típica soccer mom (expressão que os americanos usam para aquelas mães que não trabalham, cuidam do corpo e da beleza e ficam em função de buscar e levar os filhos). Bom, além da raiva de ver o corpo da soccer mom que definitivamente não precisava do spa, ela ficava gritando na aula de hidroginástica “queima, queima, queima”. Será que as calorias precisam de incentivo verbal para serem queimadas? Residirá aí minha dificuldade de emagrecer?

– No domingo, minha companheira era uma senhorinha de 102 anos que “alugou” o instrutor de musculação, que não pôde caminhar comigo na orla porque tinha que andar a 1 km/h com ela.

– E falando em velhinhas, os elogios que eu recebi dos professores não surtiram nenhum efeito na minha auto estima. Para quem está acostumado com senhoras de pernas varicosas e dezenas de kilos a mais, é óbvio que impressionavam meu “pique” e “coordenação”. Por mais que esteja longe do corpitcho de uma blogueira fitness, eu sempre fiz ginástica e tenho só 35, né?!

– Senti-me uma daquelas crianças enjoadas para comer. “Será que a banana pode vir sem canela?”. “Será que dá para trocar esse iogurte natural por outra coisa?”. “Não como melão”. “Não como mamão”. “Não como caqui”. “Não como pudim de coco”. E por aí vai… Até que fiquei com tanta vergonha que comecei a comer gelatina, kiwi e outras coisas das quais não gosto só para não me sentir a crica da alimentação.

– A sociedade brasileira não confia no pai. Não bastasse a culpa e a saudade de estar longe da minha filha, quando eu dizia que a deixei aos cuidados do pai, a cara de espanto era geral. Pessoal, minha filha não estava com uma pessoa qualquer, era com o PAI dela. Tadinhos, ninguém bota fé nos pobres pais.

Deu para sentir o drama do meu final de semana, não?

Keira canta

Uma das coisas que mais me impressionam nos atores de Hollywood é que eles não só atuam, como cantam, dançam e tem todas essas habilidades artísticas que te surpreendem quando você vê, por exemplo, o Russel Crowe – o gladiador! – cantando super bem em “Os miseráveis”.

mesmo se nadaQuem me deixou pasma recentemente foi a Keira Knightley como cantora em “Mesmo se nada der certo”. Ela é uma compositora que se encontra sem chão quando o namorado, também cantor e compositor, a abandona depois de eles se mudarem da Inglaterra para Nova York. Sem saber qual novo rumo dar a sua vida, Greta é descoberta por um produtor musical. Ele já fez muito sucesso e agora amarga com o afastamento da empresa em virtude de suas atitudes destrutivas. Duas pessoas que caíram e que podem se levantar, apostando um no outro.

Recheada de músicas deliciosas, a comédia romântica proporciona um daqueles momentos gostosos como comer uma mousse de chocolate, saboreando devagar cada colherada. Se o chato do Mark Ruffalo fosse substituído por outro ator, o filme seria ainda mais aprazível!

Tentei encontrar o cd aqui no Brasil e saí frustrada. Comprei pela Amazon e não sei bem por que cancelaram minha venda. Acho que terei de me render a comprar a música (se tiver) no iTunes. Pobre de mim que quero ser antiga e ter um cd!

Tag: 33 perguntas

O cérebro está a mil com os preparativos das férias, então a tag 33 perguntas serviu para desanuviar e permitir que eu não suma do blog!

criança lendo fofa

1. Por que você costumava levar bronca quando criança?
Eu era (sou) comportada. Tomei bronca nas poucas vezes em que nas brigas com meu irmão eu levei a culpa.

2. Qual foi a última vez em que você saiu sem rumo?
Será que alguma vez saí sem rumo? Eu sou uma “planejadora”.

3. Três objetivos para seu futuro…
Viajar, deixar de me importar com a opinião dos outros e limpar minha caixa de entrada do email.

4. O que você encontraria se abrisse a geladeira neste exato momento?
Leite, água, fruta, comida para minha filha.

5. Qual tecnologia ocupa mais o seu tempo?
Computador.

6. Uma coisa usada que você comprou…
Eu não gosto de coisa usada, confesso.

7. Qual a primeira coisa que você faz ao acordar?
Preparar a mamadeira da minha filha (ela é meu despertador… Às 6h30, que sono!).

8. Do que você precisa neste exato momento?
De um estagiário bom.

9. Qual foi a última coisa que você leu, ouviu ou assistiu que te inspirou?
Um texto da Verily magazine sobre a duquesa Kate e a inspiração de assumir o corpo pós-parto (leia aqui)

10. Um souvenir que você comprou ou ganhou…
Amo as Matrioskas que comprei e que ganhei de souvenir.

11. O que te deixa estressada?
Estar atrasada, trânsito, ter que ligar para a central de atendimento, as coisas não saírem como eu planejei.

12. Já morou em outro país além do Brasil?
Sim. E por mais que eu ame o Brasil, que saudades desses intercâmbios…

13. Você tem tatuagem?
Não. Do jeio que sou alérgica, minha mãe diz que elas seriam em alto relevo.

14. Qual foi a última coisa que você pesquisou no Google?
Viva o Google! Além de servir ao meu trabalho todo dia, pesquiso como chegar aos lugares. A última que pesquisei é como chegar a casa de uma amiga.

15. Qual a sua maneira de ser egoísta?
Comendo toda a barra do chocolate.

16. O que demora demais?
Tanta coisa… Cólica, chegar no trabalho, chegar em casa, chegar o final de semana.

17. A última vez em que você ficou acordada durante a noite toda…
No primeiro dia da minha filha em casa. Pais inexperientes, é o que eu tenho a dizer.

18. Qual comida que todo mundo ama mas que você odeia?
Mamão.

19. O que você está vestindo agora? O que essa roupa diz sobre você?
Sapato preto, calça social beige, camisa preta, malha preta. O que ela diz sobre mim? Que eu estava com pouca inspiração.

20. Já fez amigos ou se apaixonou por alguém que você conheceu pela internet?
Tenho conhecidos da internet, mas minha paixão e meus amigos foram adquiridos na vida “real”.

22. Qual foi a primeira coisa que você comprou com seu dinheiro?
Revistinha da Mônica.

23. O que tem na sua prateleira?
Coisas em excesso.

24. Como você se acalma depois de um dia estressante?
Capotando na cama.

25. Escreva sobre algo que você quebrou…
Quebrei uma promessa para mim mesma. Mas continuo tentando.

26. O que você mais gosta de comer no café da manhã?
De silêncio. Isso não existe mais na minha casa, os cafés da manhã agora são ruidosos.

27. Como quer que sua vida de aposentada seja?
Com saúde, dinheiro e boa companhia.

28. O que você leva em consideração ao votar em um partido político?
Vamos pular esse assunto deprimente?

29. A religião é um fator importante na sua vida? Por quê?
A religiosidade é, isso de crer em algo maior, de fazer o bem ao outro. Já quanto aos dogmas da religião, é algo que me questiono há um bom tempo.

30. Como está sua casa agora, limpa, suja?
Limpa. Com brinquedos na sala. Com a mala do meu marido aberta. Com uma pilha de revistas me esperando.

31. Você não economiza quando o assunto é…
Viagem. Melhor dinheiro gasto.

32. Você separa o lixo para reciclagem?
Quando lembro.

33. Sua sobremesa favorita?
Brigadeiro. E também o pavê da minha mãe.

Quem mais respondeu:
A Michelle, do Resumo da Opera e a Juliana, do Fina Flor. E a Del, do Bonjour Circus, acabei de me tocar.

Criança no armário

chave de sarahNo meio de soluços incontroláveis, percebi – tardiamente – ter escolhido o filme errado para aquele momento. De TPM, às vésperas do dia das mães, com a filhota dormindo na casa dos avós, não devia ter escolhido uma história que envolve crianças em campo de concentração, não é?

“A chave de Sarah” é um filme que eu queria assistir há um tempão e que o Netflix trouxe como recomendação para mim. Julia (a sempre fabulosa Kristin Scott-Thomas) é uma jornalista americana, radicada em Paris, a quem é dado o trabalho de escrever uma reportagem sobre a pouco falada contribuição da França ocupada com o plano de extermínio dos judeus pelos nazistas.

Um assunto incômodo e que não é fácil julgar se você não estava na pele de qualquer dos envolvidos, sejam franceses judeus, sejam franceses de outras religiões.

Em paralelo, corre a história da menina Sarah. Quando oficiais chegam em seu apartamento e dele expulsam ela e seus pais, Sarah esconde seu irmão no armário, o tranca lá e pede que espere por ela.

Em sua ingenuidade – e também na dos pais, que não sabiam direito o que vinha a seguir – Sarah não imaginava que ficaria presa no Velódromo e depois em um campo de detenção, esperando ser transferida para um campo de concentração, enquanto seu irmão a aguardava dentro do armário.

A menina não se descuida do seu objetivo: voltar a casa e abrir o armário. Seu irmão não sai de seu pensamento e isso reflete em todas suas atitudes. É angustiante e comovente.

A história não é original ou extremamente bem conduzida, mas é um filme interessante e que tem a virtude de mostrar não só que os desdobramentos de um único ato podem não ser aqueles que você previu, mas também que há feridas que nunca saram de verdade.