Conversa entre avó e neta

– Está chegando o aniversário do seu irmão e da sua mãe, o que você acha que podemos dar de presente para eles?

– Para meu irmão um carrinho, vovó, ele só gosta disso.

– E para sua mãe?

– Um livro.

Pausa

– Ela já leu todos que tem em casa, vovó.

(como recontado por minha mãe) (encheu meu coração de amor)

“Vale do encantamento”

Não importava a pilha de cinquenta livros a serem lidos na minha casa. Eu queria ler algo da Amy Tan. Uma história que se passasse na China, que tivesse toques fantásticos, que tivesse drama, que eu tivesse certeza de que me envolveria.

Que bom que eu segui meu instinto e busquei na casa da minha mãe “Vale do encantamento”.

vale

Na China do começo do século XX, Violet cresce na casa de cortesãs de sua mãe, Lulu. É uma casa de “classe”, em que clientes chineses e estrangeiros são bem-vindos. Violet é mimada e se acha superior por ser americana, até ser confrontada com o fato de ser meio-chinesa e perder, em um momento extremamente doloroso, o convívio com sua mãe.

Por quase 600 páginas fui transportada para a trajetória das vidas de Violet e Lulu. Encantei-me com a descrição dos costumes e das cidades tão diferentes do que eu conheço. Sofri com as dores que sofreram mãe e filha: decepção, mal-entendidos, separação, morte, perda, violência, traição. Corações partidos que conheceram grandes amores e também grandes desilusões. Que batalharam, se refizeram, seguiram firmes.

Uma jornada incrível de se acompanhar.

“Fazendo as pazes com o corpo”

Er…. ontem não tivemos o post prometido por motivos técnicos de marido me deixando trancada fora de casa. É a vida, né, gente….!

Desantenada do mundo jornalístico televisivo que sou, não sabia quem era Daiana Garbin quando uma amiga estava comentando sobre o livro dela, “Fazendo as pazes com o corpo”.

daiana

A conversa em que surgiu o nome do livro era bem profunda sobre como nós mulheres temos estas questões difíceis com o desejo do corpo perfeito, como a relação com a comida passou de prazerosa à classificação em comida certa ou as proibidas “gordices” (detesto esta palavra), como a gente se vê com um olhar muito mais crítico e indelicado do que aquele que dirigimos às amigas.

Na esteira desse desabafo mútuo – e que fez eu perceber que essa pessoa não era mais uma conhecida, mas agora uma amiga – ela me recomendou a leitura do relato da Daiana Garbin.

“Uma mulher linda dessas escrevendo sobre problemas de auto-estima em relação à aparência?”, pensei, descrente. Retirei o preconceito ao iniciar a leitura e valeu a pena.

Daiana Garbin foi bastante corajosa em dar a cara a bater ao criar um canal no youtube e ao escrever o livro, onde nos conta de todos os anos em briga com a balança, em um relacionamento doentio com a comida, com tudo que ela perdeu ao deixar esse assunto permear tantas escolhas e o conceito que ela tinha de si mesma.

Eu não tenho distúrbio alimentar, mas compreendo quando ela confessava o que é se avaliar pelos kilos a mais, pensar que “tem” que fazer dieta senão seria “menos”… Toda uma questão de auto-estima que foi bem difícil na minha adolescência e início da vida adulta.

O livro me pareceu bacana como uma conversa para quem sofre com uma ‘relação doentia com a comida e a obsessão pela forma perfeita”, como a própria Daiana descreve.

Eu queria dar esse livro para algumas amigas. Com medo de ser mal interpretada, me refugio neste post, torcendo para que alguma delas comece a se conscientizar de que é muito perda de tempo esse objetivo do corpo de revista – que o que vale é ser saudável e aproveitar a  vida.

Recado de que eu também preciso ser lembrada de tempos em tempo. Mea culpa.

“Eleanor Oliphant está muito bem”

“Eleanor Oliphant está muito bem”, de Gail Honeyman, foi um livro que caiu muito bem!

Que me emocionou. Que fez eu não ligar para eventual clichê ou nítida intenção de ser informativo. Que fez com que eu me apegasse aos personagens ao ponto de dar tristeza de me despedir deles ao fim da leitura.

eleanor

No começo do livro, a gente não gosta tanto assim da narradora. Eleanor é estranha e sem amigos, justamente pela falta de traquejo social. O destino não se importa com as características peculiares de Eleanor: joga na sua frente um senhor que passa mal na rua e um colega recém-contratado, que ajuda a salvar o desconhecido.

Eleanor se vê, então, obrigada a conviver minimamente com estas pessoas, o que faz com que a gente conheça mais sobre ela e passe a se afeiçoar. Ao ponto de querer dar um abraço nela quando revelações ruins sobre o passado de Eleanor afloram.

Não vou falar muito da história, pois ela merece ser apreciada aos poucos, com bastante sensibilidade e delicadeza por parte do leitor.

 

 

 

“Em um bosque muito escuro”

De novo eu sofri do mal de ter lido muitos livros de suspenses nesta vida… Alguém me ajuda a encontrar um suspense/policial que me surpreenda?

Com “Em um bosque muito escuro”, de Ruth Ware, me aconteceu a mesma coisa que quando li “O livro dos espelhos“: a história me prendeu até certo ponto quando eu percebi muito do que viria a acontecer e todo o suspense se esvaiu…

bosque escuro

Assim, vou dar o mesmo conselho: se você não lê muito, eu recomendo, é uma boa história. Para quem já tem uma bela bagagem, talvez não seja a melhor opção.

O livro começa arrastado e pensei em deixar de lado.

Leonora é uma reclusa escritora que aceita participar da comemoração de despedida de solteira de uma amiga de infância. Poucas pessoas aceitam o convite e elas partem para uma reclusa casa de vidro, no meio de um bosque.

A história segue devagar e desinteressante até Leonora acordar na cama de um hospital, toda machucada, com a certeza de que alguém foi assassinado – só que ela não se lembra de quem foi morto e de quem teria sido o agressor. Que pode até mesmo ter sido ela!

Nesta parte o livro fica interessante e o fato da narradora ser pouco confiável, com sua falta de memória, torna o suspense viciante.

Pena que eu logo percebi quem poderia ser o único personagem por trás do acidente a permitir que Ruth Ware nos apresentasse uma reviravolta…

 

 

Feliz aniversário de 7 anos, blog!

No dia 12 deste mês o blog completa sete anos.

bolo star

Eu sempre me assusto quando chega esta data, porque não parece que passou tanto tempo desde que eu resolvi jogar para o mundão da internet minhas dicas de livros, filmes e outras felicidades.

No começo era empolgação, planos, até comecei a pensar em estratégias de postagem e afins.

A vida não virtual atropelou o tempo que eu podia me dedicar ao blog e eu conscientemente optei por mantê-lo, mas sem qualquer obrigação de rotina, assiduidade ou atenção às estatísticas de quantidade de acesso.

No fim, ele serve mais a mim mesma do que aos outros. Serve para eu me lembrar de algum livro bacana quando vou dar dica de leitura para uma amiga, serve para eu escrever de um jeito menos formal do que no trabalho, serve como um registro de uma parcela da minha vida.

Nesta semana quero dar algo àqueles que fielmente se mantém atentos às raras postagens! Vou postar de hoje até sexta. Espero que gostem! Eu sei que eu vou curtir estar aqui 🙂

“Tudo o que nunca contei”

Comecei me apaixonando pela capa do livro. E terminei apaixonada pela história – que é triste e envolvente.

Uma experiência muito pessoal e que me encantou em relação à esta leitura foi que eu comecei a enxergar os personagens com minha recente “visão de mãe”, que tem permeado praticamente quase todos meus sentidos, e quando dei por mim, também estava lendo os acontecimentos com minha “visão de filha”. Foi tão revelador e tão satisfatório viver essas duas sensibilidades no mesmo livro!

nuncacontei

Na trama criada por Celeste Ng, não há um personagem principal. Os cinco integrantes da família tem suas vozes e percepções alternadas o tempo todo e cada um deles é parte essencial da narrativa.

Temos o pai, James, filho de imigrantes chineses, cujo maior sonho é se sentir incluído na sociedade, não ser sempre o diferente nos ambientes que frequenta. Temos a mãe, Marilyn, com aparência norte-americana típica, cujo sonho é o inverso: se destacar, não ser “somente” uma dona de casa.

Dos filhos, temos: Nath, o mais velho e Hannah, a mais nova, ambos fisicamente parecidos com o pai chinês e ignorados pelos pais, em especial Hannah, que também é ignorada pelos irmãos. Por fim, Lydia, cujos traços não-chineses a tornam a preferida do pai, pela possibilidade de ter amigos, e cuja inteligência a torna a preferida da mãe.

Na primavera de 1977, Lydia aparece morta. Toda a estrutura familiar rui. Aos poucos, o leitor vai entendendo qual era essa estrutura familiar, de onde ela veio, como cada um se adaptou – ou não – a ela.

A investigação da morte (acidente, homicídio ou suicídio?) é o que menos importa. A relevância está nos laços familiares, nos sonhos frustrados, na dificuldade de comunicação, nas palavras não ditas – no que nunca nenhum deles contou ao outro.

Tudo isso apresentado de forma sensível, fácil de ler, cativante. Você sente a frustração de cada um, você entende as motivações de cada um. Eu queria entrar no livro e dar um abraço em cada um deles.

Um livro precioso que merece todos os méritos de ser bestseller.