29 anos para sempre

“A incrível história de Adaline” não é uma obra relevante, original, emocionante ou qualquer primor de construção narrativa. É um pequeno e bonitinho filme de amor. Um romance bem açucarado. Com detalhes que, no entanto, o retiram da prateleira dos filmes passáveis e o coloca na prateleira de bons filmes para uma noite cinzenta.

Blake Lively (que menina charmosa, até dá um pouco de raiva) é Adaline. Em um acidente de carro, acontece uma conjunção de fatores que a torna imortal. Ela para sempre terá 29 anos. E se essa é uma idade em que ela é linda, jovem e feliz, com seu marido e filhinha, é uma maldição viver para sempre e perder as pessoas que lhe são mais queridas. Imagina sua filha envelhecer e você continuar com 29 anos?

a incrivel historia de adaline

Com medo de se envolver com outras pessoas e de se transformar em objeto de estudo científico, Adaline foge pelo mundo, mudando de identidade e cidade de tempos em tempos. Até que uma paixão à primeira vista pelo igualmente charmoso Ellis (Michiel Huisman) a faz repensar seu modo de viver.

A fotografia do filme é belíssima, como se uma fábula fosse. As atuações são o.k. e o texto não é nada acima da média. O resultado final é um filme gostosinho de se assistir, se acompanhado por uma guloseima e um coração leve.

Dama de ouro

Um dos grandes motivos pelos quais eu amo tanto viajar é que o que eu aprendo permanece comigo. Quando o que eu vi ou vivenciei é novamente colocado diante de mim na forma de um livro ou um filme, a curiosidade revive, as lembranças retorna, outras lembranças correlatas assaltam minha mente…

Ao assistir ao filme “A dama dourada”, eu fui presentada não só com uma bela história – minha memória deliciou-se ao passear de novo por Viena, apreciar as obras de Klimt no museu Belvedere e se deslumbrar com o retrato de Adele Bloch-Bauer (já em NY).

dama dourada

Helen Mirren é Maria Altman, sobrinha de Adele Bloch-Bauer, uma das sortudas pintadas pelo famoso pintor Gustav Klimt. Maria e sua família levavam uma vida confortável até a invasão nazista na Áustria. As posses da família judia foram saqueadas, em especial as obras de arte, dentre elas o famoso quadro de sua tia Adele.

Décadas mais tarde, Maria decide reaver o quadro roubado, agora em exposição no Belvedere (museu em Viena?). Para isso, contrata um advogado que a auxilia a processar o governo austríaco. É uma história verídica e emocionante.

Ainda que o filme não fuja de algumas frases de clichês irritantes, há outras cenas tão poderosas que eu não consegui disfarçar as lagriminhas que teimaram em descer por minha bochecha.

Direito/direito

Alerta: pode parecer que este texto é sobre Direito. Não é. É sobre fazer o que é direito.

O Código de Processo Civil brasileiro será substituído por um novo, no ano que vem. O novo código tem como um de seus princípios básicos impedir decisões-surpresas. Ele quer que haja diálogo antes das decisões. Parte-se da premissa de que o juiz exerce um nobre ofício, o que não significa que esteja acima das partes. Sua missão é solucionar o conflito, mas com a possibilidade de que cada parte se manifeste previamente à tomada de decisão.

Refletindo sobre o assunto, percebi que este princípio não vale somente para o processo judicial. Vale para vida.

Se existe uma regra  – seja ela explícita (escrita ou falada) ou implícita (atitude que se espera comumente em determinada relação) – e uma das partes envolvidas decide não obedecê-la ou mudá-la, o diálogo antes da decisão é essencial. É medida de respeito dar a chance ao outro afetado para que diga suas razões e saiba, antecipadamente, da possibilidade de que o esperado não se concretize.

É fazer o que é direito.

Não estou aqui nem discutindo a validade de não se seguir uma regra ou querer mudá-la no meio do jogo. Isso vale outra longa reflexão.

O que eu defendo aqui é a transparência prévia – que se evite decisões-surpresas na vida das pessoas com quem você convive.

Outro paralelo com a atividade jurisdicional e a vida é como um bom julgador analisa o conflito a ele submetido.

Cada parte, por óbvio, vai defender que está certa em sua atitude. O bom advogado sabe usar as palavras a seu favor. Recheia sua argumentação de dados periféricos que parecem distorcer a fala do outro. Coloca em dúvida a certeza com o qual a outra parte afirma seu direito. Tenta mudar o foco da discussão para coisas menores e assim desviar a atenção dos fatos que realmente importam.

O bom julgador consegue ver além da retórica. Consegue destacar da discussão os poucos fatos que são verdadeiramente relevantes. Não se deixa levar por argumentos que só lateralmente tocam na questão. Por questões que não são as cruciais. O bom julgador analisa os fatos que, sem a influência desses “frufrus” tendenciosos, leva a dar razão a um ou outro.

Na vida também é assim. Quantas vezes somos levados a pender para um lado por minúcias que despertam a simpatia, mas que no frigir dos ovos não são exatamente o que se está discutindo? É um trabalho difícil, esse de reduzir a análise do conflito ao que importa, àquelas atitudes que foram determinantes para o resultado e que são centrais para ter surgido a disputa em primeiro lugar. Que difícil é não se desviar da análise correta quando se depara com um bom jogo de palavras!

Não importa se é difícil fazer o que é direito quando isso nos trará um prejuízo, quando será prejudicial a nossas vontades ou desejos. Fazer o que é direito equivale a uma consciência tranquila, mesmo que doa o bolso, os projetos e os interesses pessoais.

E se, por acaso, pelo simples fato de ser humano, você surpreender outra pessoa com o desvio de uma regra (quem não erra?), dê um freio no instinto de ficar na defensiva. Assuma seu comportamento. E mesmo que você não esteja disposto a compensar o erro por inteiro, a honestidade ajuda a aliviar um pouquinho o gosto amargo na boca.

Feliz aniversário de 4 anos, blog!

Blog, parabéns por seus quatros anos!!!

Foto por Júlia A. O.

Foto por Júlia A. O.

Como eu já sabia que hoje seria MUITO corrido, a festinha do blog aconteceu ontem, com direito a cupcake e compra de três livros. Minha resolução de comprar menos livros deve ceder frente a um presente de aniversário, vocês não acham?
Por acaso, foi ontem também que uma amiga (obrigada, ) me doou um livro do Jostein Gaarder, que eu adoro e que há anos não leio.
Festa antecipada, sim, mas digna desse espaço tão meu e ao mesmo tempo tão do mundo.
Como um filho.

Trecho do artigo “Colorir”

“A leitura é uma caminhada rumo ao topo de uma montanha, ela exige uma certa preparação, a trilha é permeada por imprevistos (quedas, avalanches, encontros inusitados, visões inesperadas, etc.), cansaço, desânimo, entusiasmados ao ver o topo se aproximando e, ao chegar lá, estamos diferentes, por fora e por dentro, de quando começamos a jornada.

A experiência leitora amadurece, nos torna donos do nosso destino, exige que sejamos responsáveis por nossos atos e dizeres.”

trecho do artigo “Colorir”, da coluna “Palavrórios e rabugices”, Ilan Brenman, Revista Crescer

Nostalgia antecipada

Saí da pediatra e chorei.

Algum problema com minha filha?

Não, nenhum. Graças a Deus!

E justamente por estar tudo dentro do padrão é que em alguns meses fralda, mamadeira, berço e chupeta irão embora.

Meu choro não foi de tristeza.

Foi de nostalgia antecipada.

Pelo bebê que está virando criança. Na verdade, pouco de bebê ela tem. Só que como boa mãe coruja, ela sempre será meu bebê. Mesmo que passe a escolher seus sapatos, me dê ordens, cante as músicas que são as suas preferidas e decida do que quer brincar.

 

“Sobre homens e lagostas”

Lembram que eu contei que no Natal do ano passado meu marido vasculhou meu blog atrás de autores de livros que eu tinha adorado, como forma de acertar no presente?

Trabalho bem feito, baby! Eu A-D-O-R-E-I “Sobre homens e lagostas”, de Elizabeth Gilbert. <3

Foto por Cristiano Cittadino Oliveira A modelo sou eu rsrs

Foto por Cristiano Cittadino Oliveira
A modelo sou eu rsrs

Ruth Thomas nasceu na ilhazinha de Courne Haven, na costa do estado norte-americano do Maine. Sua mãe tem ligações com a única rica família da ilha. Seu pai é um dos melhores pescadores de lagosta da ilha – uma das únicas ocupações disponíveis aos homens. Aliás, sem as lagostas, Courne Haven e nem sua rival Fort Niles existiriam.

Por rebeldia contra sua mãe ou por sentir que é o que ela realmente gosta de fazer, Ruth decide não ir para a faculdade e sim se embrenhar no mundo desses homens rudes, egoístas e desconfiados.

Não diria que é um livro facílimo de agradar. O mundo da pesca de lagosta é bem esmiuçado, assim como as linhagens das famílias das duas ilhazinhas. O miolo da história é um pouquinho arrastado e o final é tão cheio de fatos importantes que eu acho que merecia mais páginas.

Eu vejo nesse livro, o primeiro de ficção da Elizabeth, muitas semelhanças ou o início do que seria “A assinatura de todas as coisas” (que eu amei de paixão). Em ambos livros há uma heroína que quer trabalhar em um campo não comum para mulheres; a relação com o pai é mais bem construída do que com a mãe; o romance não é hollywoodiano; alguma área da ciência é bem explorado (num, as lagostas e o mercado da pesca; noutro, a biologia). A personagem principal tem defeitos e mesmo assim – ou por causa deles – vem morar no coração do leitor.

Por um acaso da vida (ou destino), resolvi ler esse livro logo depois de conhecer o Maine. Nem me atinei para onde a história se passava, até começar a leitura e ser transportada para aquele lugar de que eu tanto gostei. Sentia o vento gelado e salgado bater não só nos rostos dos habitantes de Courne Haven, mas no meu também. Acompanhei o crescimento de Ruth como uma mãe aflita. E passei a mão carinhosamente na capa quando cheguei ao fim.